Coleção pessoal de hidely_fratini

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⁠L.e.m.b.r.a.n.ç.a.s
Brincadeira literária com palavras e expressões pré-escolhidas

Ainda menina, corria pelas ruas, pés no chão.
Brincava muito; pulava; pedalava bicicleta com guidão alto que atrapalhava o roteiro de minhas andanças.
Quantas vezes, distraída, estatelava-me por cima de pedras e tijolos. Resultado: esfoliação dos joelhos, além da luxação de dedos e tendões.

Tudo isso acontecia em frente à casa da vovó, que dizia ter nascido longe, muito longe. Num lugar muito frio, cheio de mares e de gente feliz!
A cidade em que nasceu se chamava – e ainda se chama -, Copenhagen, dizia vovó sempre contente.
Sua especialidade na cozinha remete-me às melhores lembranças. Lembro de seu inesquecível bolo de chocolate molhado, assim chamado por seus netos.

O bolo foi adaptado com ingredientes da nova terra, dizia.
A calda que recobria o bolo era levemente picante – sua marca inconfundível, cujo segredo nunca fora revelado às suas curiosas comadres, aos parentes e vizinhos.
Quando, nas noites frias, era indagada sobre tal feito, respondia sorridente e com seu sotaque inesquecível:

__ Hej, godnat, tak (1) pur perguntar, ér u cheirrú dáo ’Dinamarrk (2) ki tragú cómiga i, sempre kipóossuû, ponha’ um pitadãñ nu cardã di chucollate’ parra trazerr meo paisse maiss prróximuû...

Para trazer sua Dinamarca mais perto ainda, e brincar com seus ouvintes, emendava umas palavras dinamarquesas, deixando-as mais longas e à moda alemã, como:

__ Speciallaegeprakisplantaegningsstabiliseringsperiode!!!

Todos riam sem entender nada e, provavelmente, naquela altura de sua vida, nem minha avó querida!

(1) Olá, boa noite, obrigada...
(2) cheiro de Dinamarca

Agosto/2022

⁠Poesia espelhada ao contrário do poema Negra, de Carlos Drummond de Andrade. Um exercício...

Branco

O sinhô branco tem tudo
o sinhô branco manda em todos:
__ Negros, vão carpir arar
aguar
extrair carregar estocar no celeiro
empacotar
subir paredes
rachar lenha transportar
limpar os sinhozinhos
fêmeas para servi-lo
parir.

O sinhô branco manda em tudo
tudo que seja tudo tudo mesmo
até o minuto final de vida de seus escravos
(único tempo que têm para se libertar)
enquanto o sinhô branco desde sempre
libertado está!
Agosto/ 2022

⁠Fia foi-se e eu, cá, sem ela

Na sua infinita jornada
Mais uma etapa se realizou --
Caminho de todos nós.

Seja lá no que cada um acredita,
Esta instância terrena se encerrará.

Novos...
Caminhos
Jornadas
Lances e
Encontros.

Não importa...
A porta do outro plano sempre estará aberta para todos!

Alerta aos incautos e descrentes:
__O fato é que ninguém escapa do que é certo
E o certo é o amor que nos une
e continuará nos unindo em todas as etapas.

Com afeto e amor a você, Fia!

Da amiga Hidely
06.01.2023

⁠⁠SOBRE A BELEZA

Quando você vê um pássaro, e diz:
__ Ele é bonito!
Isso basta?
Por que perguntar a razão da sua beleza?
__ São as penas, o bico, a localização dos olhos,
a entonação do canto, disposição das pernas?
Não, é o pássaro em si que conta!
Só o pássaro!
A ciência da passarologia não entende de beleza.

Assim acontece com a música, com a poesia
e uma teoria filosófica.
Algumas notas musicais ou palavras
não nos transmitem mensagem de beleza.
Só o todo pode nos tocar.

Na verdade, eu nem sei o porquê dessas palavras...
Posso estar errada.
Mas tudo no mundo pode estar errado.
Eu posso, até, não existir!

Junho/ 1974

⁠DESIMPORTAR
(quando se desligar da energia... retorne à fonte para brilhar!)

Cansa mesmo...
Fale menos!

Enche mesmo...
Esvazia mais!
+++++++++++

Ih, não passa!
Volte,
Retorne,
Retome.... mumumumumu_______________*

Começar de novo?
Que saco, diz-se...
Não diga!
Esmurrar a ponta
da faca __
fraca?
Sangra,
Dói.

E daí, quem se importa?

2017

⁠Alguém pequeno, tão grande
(inspiração adolescente)


Você criança, de olhos grandes, calmos e serenos, reluzindo como a lua...
Sua voz infantil era sua, só sua...
Quando iria tomar forma?
Quando iria crescer?
Andava tão engraçado...
Eu só podia rir de você!
Meu riso não foi zombador,
Foi somente de dor, em pensar tantas coisas... de você!
Meu riso? Foi riso!
Quem pode dizer do que foi?

Sua altura era sua, só sua...

De repente...
Fez-se gigante, apesar de ser tão pequeno!
Você, rosto fino, mãos longas, pés grandes...
Era engraçado, meio desengonçado!
Mas eu gostava de você!

(1967)

⁠Da bondade à maldade
(Inspiração adolescente)

Uma maldade divina do inferno
Surgiu nos passos de regelante vida
Com formas de amor e doçuras de liras
Contendo no coração o prazer
e nas mãos o pecado!

De um sono de anjos, roubavas um beijo
E sempre a beijar guiavas teu anjo ao relevo
De inanimadas vidas e incorrigíveis prazeres
Esquecias que o maior pecador eras tu, pobre imprestável
Em tudo buscavas vida e esta passava a odiar-te!

As coisas que te cercavam morriam odiando-te,
Fugiam desesperadas, sem querer olhar-te
Um perdão nunca ouvistes, tu eras mau

Nada mais para beijar, tu querias o prazer
Implantastes a maldade e colhestes teu plantio,
E por fim, por tua vítima, fostes perdoado...

[Agosto/ 1968]

⁠Poema livre
(Inspiração adolescente)

Página aberta de um livro
Fechou-se...
Capítulo algum,
Não mais existe...
Nada!
Foi de compreensão que sucedeu,
Foi de paz,
Espírito consagrado...
Amor!

Foi e sempre será por nós,
Pelo bem-estar espiritual.
Não virás a mim
Casa minha
Refúgio santo!
Tu somente,
Ninguém mais.
Gélidas vidas?
Nada mais
Só paz &
Amor!

Mas, por quê?
__ Pelo amor, respondem
Mas que amor?
Ninguém explica!
Nosso olhar reflete a alma,
Alma pura de amor

Consagração real de felicidade.
Nossas mãos encontram-se sempre,
Num juramento eterno.
Amar sempre,
Seguir em frente...
Amando-nos sempre...
Sempre!

(1969)

⁠ELEGIA AO PRIMEIRO AMOR
(Apaixonado, arrebatadoramente apaixonado. Amante confesso e condenado)

Chuva.
Tarde.
Pôr do sol.
E versos morenos sobre a areia.

Calor.
Noite.
Lua cheia.
E um banco de jardim com dois amores.

Adolescência.
Descoberta do outro.
Beijo das mãos.
Toques de lábios carnudos.
Desnudos, os corações se apaixonam.

Como é possível?
primeira tarde
primeira noite
alma ansiosa
amor platônico
tomar conta de tudo?

Instalar-se para sempre
“feito um posseiro”
dentro do meu mundo!

(jan./1992)

⁠BALANÇO DOS ANOS 40

Recebi a vida sem pedir nada.
Cresci.
Aprendi a exigência do amor,
a impaciência da crise.

Perdi luz.
Enfraqueci ideais.
Conquistei planos.

Queria um aeroplano
vivaz e transparente
para me levar pelos tempos
(presente, futuro, passado)

Em busca de mim,
em busca do outro.
Da quietude dos campos,
com cavalos pastando
entre fontes inquietantes
de vilas perdidas.
Borbulhantes,
sadias,
por entre mil romarias.
O coração entre preces, amor, fantasias.

O cotidiano quebrado
como a semente do milho
caída na terra,
germinando,
gemendo a cada ciclo
por vida.

(abril/ 1992)

⁠O AMOR E O TEMPO
(ao reencontro de um amor verdadeiro, apesar do tempo e das distâncias)

O amor chega.
Instala-se
Feito água forte sem pegadas.
Cativado,
Permanece,
Impávido!

Anos e mais anos-luz se passam
E o amor permanece como semente
Numa sucessão de infindas fases e de lamentos.
São colheitas de vários e gestados frutos
Diuturnamente expelidos dos contatos.

Opa, o amor vai além disso,
das comunicações e dos tratos feitos
Pois o amor, enfim cativo, mas nunca escravo,
É eternamente oferecido em pensamento!

São contatos que não precisam ser presentes
Posto que o amor não necessita de presença física,
É gratuito,
E atua fora do espaço-tempo.
É grão, é sêmen, princípio, causa
Efeito das origens e dos finais dos tempos.

Ai o amor...
Translúcido e transparente,
Permanece, para todo o sempre, sendo
Oferecido de coração a coração e em pensamento!

(2024)

⁠Amor-semente

Sementes do amor frutificado
Ficaram nas gavetas de minh’ alma,
Adormecidas.
Longe da luz,
da água e de nós, secaram,
Ficaram lá tão esquecidas.

“De repente, não mais que de repente”
Vento forte, vindo do Norte, arrebatou-me inteira
Revirando minhas gavetas
Pondo para fora as tais sementes.

O Sol, iluminando-as por inteiro
A chuva, lavando-as com carinho
Levou-as para dentro de meu coração-ser.
Lá, ditas sementes, agora
Brotam em busca de novos frutos
Acompanhadas por seus ais, ais, ais...

Nenhum amor- semente é desperdiçado.
Por respeito às suas origens,
Mantém-se firmes e,
A qualquer Sol,
Levantam-se e germinam!

2024

⁠A soberba do saber
(dia da cirurgia de uma irmã)


Do alto do seu ser,
Médico experiente,
Longevo no cuidar,
Descuidou-se!

Quanto mais se sabe,
Mais sábio?
Não necessariamente.
Quando se pensa que sabe,
e muito,
A soberba e a arrogância
Pega-nos.
A humildade afasta-se...

Nefastos tempos,
Incontroláveis seres...
...ditos humanos!

Set./2023

⁠Apostas # postas
(Dormente... ente, ente, ente!)

O peito desponta,
Aponta,
Ponta.
________________________

Lance de erros.
Lance de certos...
Acertos.

Erros que ficam,
Persistem,
Não ficam mais comigo.

Partir a lança,
Quebrar os elos,
Abrir a porta,
A mão fechada.

Passar...
* Passado
* Presente
________________________ Futuro

Dez/ 2017

⁠⁠O hoje de antigamente

Sinto a presença da saudade.
Chega mansa,
Devagar me alcança,
Abraça-me.
Toma posse, instala-se.

Num repente, vislumbro todos os momentos:
*positivos
*negativos
*vida plena
Indo fundo em mim mesma.

Consciente X inconsciente
- "versus" da poesia -
Explode e aflora.
Como um vulcão "caliente",
Jorro para fora todos os meus ais.

Ai que saudades tenho:
*do mar
*do luar
*dos olhos fundos
*do bom manejo do afeto e das palavras.

Psicólogo leigo,
Aconchego pleno...
Plena estava como vim ao mundo...
Como voltar para o mundo?
__Como? indago!

Set/1991

⁠AUSÊNCIA
(Sem ir, sem vir. Tudo o mesmo e no mesmo esmo!)

Irmão:
Chama acesa no peito.

Filho:
Chama acesa no peito.

Amigo:
Chama acesa no peito.

Ardência de tantas chamas.
Ausências.

Presença de si,
de mim,
de ti.

Do, ré, mi, fá, sol, lá, si... ________

• O retorno! }
• A partida! }

Ida X Volta!

2017

⁠TEMPO
(Cosmovisão: achando-se nada)

Amigos, muitos.
Família, nada.
Perdeu-se no tempo!
Gerou-se sozinho...
Muitos, (a)parentes.
Mão estendida...
Volta vazia!

Dias vários.
Vida curta,
Sem fim!

O Tao de tudo.
Profundo!

Sorria,
Pois é contínua,
Continua!

Dez/ 2017

⁠PALAVRAS... LAVRAS
(Essencial é ver; ser, basta!)

Não há palavras! Há.
Esperar?
Não há por quê. Para quê?

Silêncio...
Tristeza...
Invisibilidade!

Não sou.
Sou?
Ser!

Essência,
Basta?
Que bosta!

Universo
Terra/ mar/ ar...
Misture tudo!
Nada?
Vazio!

Dez/ 2017

⁠PARTES ARRANCADAS DE MIM
(amor integrativo)

Parte complementar arrancada de mim...
Vivi como mutilada
Hora sem mãos, pés ou cabeça
Faltando-me de mim

Ah, essa parte arrancada do outro em mim...
Levada embora
Jamais retornada

Faltou-me a boca perfumada
Nunca mais beijada, nem outras encontradas
Inigualável em intimidade e emoção

Ah, essas partes arrancadas,
Multiplicadas,
Nunca preenchidas
Busca que vem de longe, de mares não navegáveis
Percebidas cedo
Encontradas
Depois perdidas em múltiplas etapas

As, essas partes do outro arrancadas de mim...
Faltas multiplicadas ao infinito
Nunca mais apartadas, nem retornadas
Ah, que falta sinto delas em mim!

2024

⁠PENSAMENTO SOLTO

Eu estou passando.
Outros estão nascendo.
Um dia só um retrato, talvez, venha a revelar algo de nós.
Mas tudo isso será recordação
E recordação é coisa falha como falha é a vida.

Abril/ 1971.