Coleção pessoal de EvertonThoughts
NÃO VOU RIMAR
desta vez não vou rimar
vou compor sem tei... mosia
atraem-me combinações musicais
porém rimas são assaz gramati... zadas
a boa poesia é muito mais que isso
é o íntimo de um ser, é alma, é...
rimas são sempre secundárias
ricas ou não, podem ser va... zias
conquanto soem muito bem
não me convencem tam... pouco
ELA
No brilho daquela noite
tomado por doce açoite
estiquei a minha mão
em sua indelével direção
Do sonho de poder tocá-la
ainda que não possa tê-la
acordei no meio de uma rua
banhado pela nova lua
PÂNTANO DOS SONHADORES
saiba que nada é bom
e nada é suficiente
vitais adjetivos dos sonhadores
objetivos de quem é exigente
são brutais se inexistentes
veja, não falo desta mente
mas do papel a minha frente
quando algo de mim eu leio
nada sinto, nenhum encanto
talvez um grande receio
de que eu não dure tanto
de que eu morra lá no meio
do pântano dos sonhadores
MINHA HISTÓRIA
no afã de escrever a minha história
erro palavras e borro muitas folhas
se almejo não viver só de memória
registro e risco minhas más escolhas
NÃO CEDO
não há mais nada interessante
tudo o que era bom foi-se noutro instante
nada presta, e se presta não é meu
um oco restou
mas louco sei que não estou
e insisto naquilo que sou
ou que penso ser, ainda que não seja
mesmo que um grande vazio insista em ficar
eu não desisto de tentar
vivo da insistência
pois desisti da desistência
enquanto ainda possuo alguma paciência
ainda que tarde o meu desejo
não cedo ao que não vejo
luto contra um inimigo imaginário
que não me deveria ferir
mas fere tanto quanto faz-me rir, o que é hilário
a vida segue e o resto acompanha
em tal viagem pouco me assanha
mas sigo na esperança que uma musa me inspire
e faça de mim seu inspirado oxiGÊNIO
SEDIMENTOS
tão lentamente quanto o vasto tempo que passou
passa o mundo a uma nova era que não findou
de grão em grão, de fração em fração
o que um dia vivia, agora morto desce ao chão
cada ser, cada elemento, existente em dado momento
deve o seu desaparecimento tão somente ao tempo
nada nunca fica do jeito que um dia foi
e a cada dia algo se vai daquilo que o tempo deixou
no grande leito repousam os seres de uma nova era
ainda não sedimentada neste inconstante presente
a ser entregue num distante e descrente futuro
MURRO
pelo urro, e apenas nele
para tudo que me oprime
e do mais profundo canto
eu solto um preso murro
O POETA MORREU
o poeta enfim morreu
quando a firme mão amoleceu
e a mente sã assim enlouqueceu
não está claro quando o claro escureceu
quando o olho viu somente o breu
mas toda a dor de mim esvaneceu
tanto quanto o amor que pereceu
se o sentimento vivo, por fim morreu
o poeta, que parecia, desapareceu
A vida singra num vasto e profundo oceano de incertezas, na certeza de que, neste mundo, algo viverá de soberano.