Coleção pessoal de Epifaniasurbanas
“No meio do caminho
havia um tronco caído.
Despido de folhas e flores
por um lenhador abatido.
Quando árvore fazia sentido.
Cabeça tronco e membros,
hoje só o tronco vemos.”
Jardim ambulante
meio mulher
meio flor.
Aromatizante
leva suas raízes
onde quer que for.
Jardim ambulante
meio mulher
meio flor.
Estonteante
parte é só beleza
parte só amor.
“Pássaro encantado tu que detém o canto e a palavra. Que transita entre a realidade humana e a eternidade dos céus. Carrega-me. Leva-me aonde o tempo não me encontre. Onde eu e a eternidade, assim como tu, também somos um. Onde ainda sou garoto e a decepção ainda não maculou meus olhos. Onde a felicidade é certeza e não possibilidade. A casa da poesia.
Onde somos pretérito, presente e futuro.”
“A distância, a rotina, a correria do viver podem nos fazer esquecer temporariamente de quem gostamos ou porque gostávamos.
Porém só é preciso a oportunidade de um toque para que novamente este ser volte a povoar nossa mente. A pele não sofre de Alzheimer, ela sempre se lembrará ou de uma carícia ou uma cicatriz.”
Se soubesse criança como passa o tempo.
Voltavas a brincar.
Continuava sorrir.
Aproveitava o viver.
A vida adulta é pura lamúria.
Tudo tem cheiro de saudade.
Queria ter ainda a confiança do abandono.
Quando me esquecia nas mãos de Deus.
Hoje que cresci e assumi o controle, não vivo.
Tudo é se der,
tudo é quem sabe.
”A IDADE MÍDIA traz a voga o homo-idiotas só que agora com um grande adendo, mesmo se abstendo de olhar o coletivo e discutir política como no período helenístico, hoje estes tem o direito de falar.
E assim caminhamos a passos de moonwalker tendo como norte um destino certo, a involução.”
“A arte não pode ser analisada, ela quem nos analisa.
Quântica não se esgota, muda conforme o olhar.”
“AMOR,
a vida é FLOR.
Linda,
breve,
frágil.
Precisa
de sol,
de àgua,
de borboletas
pra continuar
a existir.
Não
desperdice
AMOR.
A vida
é flor.
Qual razão
AMOR
da vida,
da flor.
Senão ser
sol,
àgua
e borboleta
pra que outra
flor
continue...
a ser VIDA,
linda,
breve,
frágil."
"Soube que era saudade
quando houve perdão sem ocorrer pecado.
Quando notei que a lua não respeitou o dia.
Quando as asas antecederam o pássaro.
Quando o beijo chegou antes dos lábios.
Quando fiz duas porções para jantar só.
Quando houve dicotomia e minha alma se apresentou sem corpo.
Quando meu corpo sentiu o que meus olhos não enxergaram.
Quando fechei os olhos para enganar o meu cérebro.
Quando vi sua foto e a memória quis encarnar."
“A arte nasce da nossa necessidade de preencher vazios.
A começar pelo branco do papel.
Ela é nossa última conexão
com o Éden.
Ela faz da criatura, criador.
Nela há eternidade.
A arte come o tempo.”
"Diante do altíssimo todo som perde a importância, todo meu vocabulário perde o tamanho, pois todo adjetivo perde propriedade.
Enquanto aguardo suas demoras procuro dar a ele o que tenho de mais puro na esperança de, quem sabe, ouvir um pouco do que ele tem pra mim. Mesmo não sabendo orar o bom Deus aceita meus silêncios como frases de oração."
"Pode até ser que o sofrimento amadureça,
mas com certeza só o amor faz com que a gente cresça.
Possuo o juízo de um imortal.
Só que de tamanho fetal."
“Entenda que o carnaval é fantasia.
E, como é bom a fantasia!
Todas as margens são rompidas no carnaval, ninguém se guarda no carnaval, ele desafia a passos de dança, a solidão e o bom senso.
Tudo isso é muito saudável, desde que não se busque estabilidade nessa sazonalidade.”
Fênix
Assim como Hesíodo
testemunhei,
a bela ave renascer
das próprias cinzas que sobraram de si.
A mais forte e misteriosa,
Fênix.
A cada morte mais vida ela adquiriu.
Ela é como o amor
Fogo incendiário
que até morre, mas nunca acaba.
Sempre ressurge.
E o fogo que a tudo prova,
a purificou das memórias
das cinzas.
E como poesia,
renasceu.”
“A flor se realiza em seu pólen pegando carona nas abelhas
para que seu fruto não nasça sem antes ter a sensação dos ares.
A poeira testifica a vontade do chão de ganhar os céus.
Tudo que existe anseia as alturas.
Assim, o pensamento em mim.
Meu pensamento criou asas,
fez minha alma voar.
Minhas palavras, essas sim, caminham.
Por isso,
Não sei se por dom ou por oficio,
quando você é o tema
Nunca sei se vou ou se voo. “
"Dividido entre a alegria e a angústia,
a solução foi oprimir o desejo.
Por medo de quem me tornei, encasulei-me.
Foram longos tempos como lagarta...
O casulo foi meu vazio.
E como vazios são essenciais,
eles foram base de minha
arquitetura emocional.
Por medo de não criar asas,
até hoje resisto à inevitável metamorfose."