Coleção pessoal de andersonventura

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Enquanto visualizo o Sol se pôr atrás das montanhas, formando um lindo espetáculo rubro-amarelado no céu, você desdenha sua natureza sóbria e recatada. Sinto falta do seu jeito docemente maluco; uma loucura benéfica, expansiva e contagiosa. Quando voltares a enxergar que a loucura-mor é estarmos juntos, o Sol continuará a escrever sua poesia rubro-amarelada atrás das montanhas, e tudo isso para mim, fará mais sentido.

As paredes do quarto seguem descascadas e não pretendo pintá-las. Tédio. Sozinho, deitado na cama de casal, miro o balde de lixo e arremesso a folha datilografada que eu lia há pouco tempo. Não foi hoje, nem ontem, muito menos anteontem que ela pensou em tomar essa atitude. Essa carta tinha sido escrita há semanas, eu pude sentir isso. Só lhe faltava um pouco de coragem para deixá-la sobre a mesinha de cabeceira — o que fez horas atrás enquanto eu dormia despreocupadamente. Bom, agora essa folha morre dentro do lixo, porém suas palavras perdurarão nesse coração descascado; coração do qual terei de pintar novamente, temendo que se deteriore por completo.

O que me incomoda em muitos dos escritores que leio é quando se escondem atrás das palavras. Querem demonstrar encanto onde não há. Tentam dar glamour ao lixo. E temem se arriscar e dar a cara para bater. Transferindo isso para a sociedade atual, é algo que também me incomoda. Pessoas se escondendo atrás de carapuças glamourosas e bancando as simpáticas. Atuando muitas vezes de forma lamentável e cínica. Preferindo executar um papel postiço a ser fiel e admitir sua própria natureza. Tudo isso para agradar a terceiros e buscar respeito de uma sociedade cada vez mais desprezível e hipócrita.

Nesta noite, sou apenas mais um. Solitário e nauseabundo. Um ser durão, porém sensível. Uma carne forrada de músculos sobre uma alma depenada. O jazz melancólico do lendário Nat King Cole dispara através das caixas de som do notebook. Não há nada a fazer. Ficarei no terraço, contatando as luzes de cada janela que se apagam, enquanto minha alma reluta em manter-se desanimada.

Quando penso somente em minha alma, em salvá-la desta selva de abutres, não estou sendo egoísta. Nem mesmo sou egocentrista ou narcisista. É apenas autoproteção. Uma forma simples, barata e útil, de não se deixar enganar. De não ser corroído por uma sociedade cada vez mais superficial. Onde pessoas atuam de maneira desprezível e desleal. E o único escudo que consigo carregar é essa reclusão espiritual. A introspecção. A solidão. E por que não, uma boa dose de loucura.

Quando estiver jantando e no silêncio do momento você sentir aquilo… uma espécie de bem-estar maluco, onde as palavras não precisam ser ditas e o seu sorriso e olhar evidenciam o sigilo da sua alma. Bom, lamento, você estará apaixonada.

Eu ligava e ela não atendia. Deixei passar. Não se pode perseguir uma mulher. Elas se desinteressam. Liberdade é o segredo. Sem liberdade não há amor. Então, esperava que me procurasse. Algumas vezes aparecia de surpresa e tínhamos noites arrebatadoras. Valia a pena cultivar um relacionamento assim. Aonde isso iria dar, eu não sabia. E essa era a seiva que nutria nosso relacionamento. O desconhecido. A incerteza. Os incautos.

O ser humano é cheio de fendas vazias, e passa a vida procurando algo para preenchê-las. Normalmente nunca encontra. Apenas mente para si, para apaziguar suas cobranças e manter a pose social. Enquanto a obsessão em ocupar essa lacuna estiver idealizada em outras pessoas, em se adequar a esse meio social tão decadente, continuaremos sendo o pior dos cínicos. Aquele que mente para si e nunca admite sua derrocada diante da vida.

O bairro é classe média e predominam moradores velhos e mendigos. Simpatizo mais com os mendigos. Ficam na deles, pedem uma moedinha aqui outra ali, compram cigarros e cachaça e tudo fica numa boa. Já os velhos, passam o tempo fofocando sobre a vida alheia, falando da tristeza que é ver o futebol sem o romantismo de 1962 e se lamentando da morte de algum conhecido (também velho). Conversam sobre isso e depois voltam para casa. Tomam seus remédios (os quais consomem há vinte anos), assistem às novelas e dormem amargurados.

Toda minha teoria do cavalheiro simpático e sedutor foi por água abaixo. Voltei a me comportar como um primata atrás de sua fêmea no cio. Eu gostava de dominar, ser o mandante, o professor. Mas dessa vez me entreguei aos caprichos dela e virei submisso, escravo. E foi uma boa experiência. Tentei dominá-la em alguns momentos, mas fui censurado e levei socos e tapas. Apanhei com uma corda de varal. Minhas costas ardiam. Sentia as cicatrizes se formando sobre a pele. Durante o resto da noite, fui explorado de todas as formas que um camponês é pela sua rainha. Ela provou de todas as partes do meu corpo enquanto fazia-me explorar cada centímetro do seu.

Você procura o amor, faz disso uma obsessão, e quando o encontra, confunde isso com monopólio, egoísmo, escravidão. Quer demostrar amor, dê liberdade ao ser amado. A insegurança nos leva à loucura e ao precipício.

Ainda bem que o tempo é o senhor da razão. Mesmo que traumas e perdas não sejam esquecidos inteiramente com o tempo, eles são amenizados e descansam em banho-maria. Quietinhos. Até que aconteça outro desastre e volte tudo à tona. Somos os senhores dos nossos atos e devemos estar seguros de que tudo que plantarmos, colheremos. Infelizmente o Nilton plantou o excesso alcoólico e colheu a morte.

Trago novamente o charuto. Mas dessa vez não inalo a fumaça. Apenas aprecio. Diferente do cigarro que é um hábito, um vício; rum e charuto são reflexivos. Harmoniosos. Acalmam a alma e nos fazem transcender a outras dimensões. Problemas se vão e a letargia fica nos fazendo companhia. Rum e charuto são analgésicos para alma.

Somos movidos pelo instinto, pelo desejo. Alguns têm controle, outros não. E admiro esses seres passionais, que não se escondem atrás do autocontrole. Que são intensos e reagem de maneira inesperada. Sem atuação. Apenas usufruindo o poder animal que lhes foi dado.

Apesar desses extravios, foi divertido. Não sei se valeu tudo a pena e se me arrependo de algo. O que passou, passou. Fazer o quê? Nem sempre viver despudoradamente e desprovido de moral é uma escolha sábia. Agora só me resta abraçar a solidão e tentar administrar esta lacuna sentimental, que, querendo ou não, será novamente minha companheira.

O que acontece é que um romance não é escrito nem com o cérebro nem com as mãos. É preciso estar disposto a se esfolar. Você se esfola, tira a pele, fica em carne viva, e então se atira no despenhadeiro do romance até o fundo do precipício. Se batendo, se ralando e quebrando os ossos contra as pedras. É o único jeito. Quem não se atrever a fazer assim é melhor deixar o lápis e o papel sobre a mesa e se dedicar a vender tomates ou entrar para o ramo imobiliário.

Não tenho motivos para ser amável, nem para fazer concessões. O escritor no fundo é um sujeito amargurado, confuso, sem explicações para nada, e pouco lhe importa se o compreendem ou não. Se é bem ou mal recebido. Se é simpático ou antipático. Se tem dinheiro ou é um morto de fome. Se você é escritor, tem que saber que essas são as regras do jogo. Do contrário, você é um palhaço. E vai ter sempre alguém por perto tentando transformar você em palhaço.