Warley Tomáz

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O vento recolhe o perfume das flores e suavemente asperge-me a face com seu aroma.

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Criança Interior

Tenho medo da noite
quando me deixas só
e o sol vai se deitar.
Sinto frio quando acordo
procurando por você
e não encontro no olhar.
Quanto afago bastaria
a criança interior?
Ingênuo coração,
carências de homem feito.
Ama-me, te peço.
Te amar,
somente quero.

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Peregrino

Eu, peregrino
peregrino pelo caminho
na busca incessante
caminho sozinho.
Cheio de gente,
cheio de Deus.
Ó, cheio de malas,
bagagens.
Nu, peregrino
livre pelo caminho,
irmão universal
do cosmo criação
do Amor, Deus menino.

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O olhar desconhece as fronteiras que sela as palavras.

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Cada ser humano é um universo desconhecido. Atravessamo-lo por toda a vida e não o conhecemos de fato.

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Querer-te

Quero-te!
Arde-me a alma por Vós
e, no entanto fraca
é minha vontade.
Bastaria o sim
desposado sem palavras
com todo o tudo de meu ser.
E não mais distâncias
por mais longínquo fosse o caminho.
Ou dolorosa a solidão.
Consumar a minha entrega
em inefável Comunhão.

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Soneto ao Sacrário

A pequena luz escarlate
a cintilar continuamente
confirma a excelsa verdade
que Deus está presente.

A graça mais perfeita
me encanta o coração
a Majestade Eucarística,
um colóquio em oração.

À minha cela se avizinha
a sublime espécie de Pão.
Na minha casa, este convento

na incruenta doação
como o pai que dá sustento
resta-me amá-Lo. [Conclusão].

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Lembranças são fragmentos das pessoas que passaram pelo jardim de nossas vidas.

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Café da Manhã

Um belo domingo para um café ao ar livre. O céu azul, quase sem nuvens, revela um sol de um horário inadequado para se levantar, entretanto, é domingo!
Com o café ao leite e um grande e redondo pão-de-queijo fui buscar alento sob um enorme abacateiro em frente ao jardim, para alimentar meu desejo poético de viver.
Uma daquelas cenas cômicas que costumam desabar em série a personagens patetas em filmes de categoria B veio abarcar o poeta.
Da árvore, a sua raiz exposta no chão torna-se cadeira. No súbito movimento de sentar-me, percebi um emaranhado de teia de aranha envolta ao rosto. Enquanto desvelava com uma das mãos ocupadas, a teia sem fim, a cadela inquieta espreitava o momento de acercar-me com seu focinho apurado o meu pão-de-queijo.
Prevendo o perigo, com uma das pernas procurei espantar a cachorrinha, sem sucesso. A outra perna, uma formiga, tipo cabeçuda, fez o favor de aplicar uma picada certeira, provocando meu desequilíbrio e consequente desperdício de um pouco de café, escorrido pela perna.
Um quarto de minuto, talvez... Bastara um quarto de minuto para decidir-me pelo retorno a uma cadeira rotineira com minha xícara e pôr fim ao café, inspiravelmente desastroso.

A poesia não nasce de mim. Ela está a nossa volta, declamada ininterrupta pela natureza. Meu ofício é escutá-la; apalpar em minhas mãos seus versos e, codificá-los aos olhos de almas sensíveis que delas se alimentarão com prazer.

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Somos vassalos de um sistema que não escolhemos.

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Chato

Acordei meio chato ontem,
não, talvez eu seja chato também hoje.
Mas, amanhã retomo minha face normal
que normalmente sou durante a semana.
Não que eu escolha bem cedo ser ou não
chato ou extravagantemente normal.
Uma boa noite de sono me abastece.
O chato é acordar cedo e enfrentar o frio
enquanto me vejo atrasado às 6:30 da manhã.

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Existem dias em que sou Sol, em outros, estou só.

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O Eterno Poeta

No princípio era a Palavra
e a Palavra estava junto de Deus,
e a Palavra era Deus.
Por fim, Deus se fez poesia,
exaltando o amor na compaixão
à vida humana.
Ele, o Eterno Poeta,
acendeu a luz,
multiplicou o pão,
carregou a cruz.
E seus versos ecoaram pelo espaço.
Lá, onde os limites do universo
incomodam a inteligência.
Poeta de amor eterno,
dos enamorados, da musa Criação;
inesgotável sublime simplicidade,
dos Homens é salvação.

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Ao meu lado

Quando estás ao meu lado,
o não-tempo pressinto
e outro lugar do universo não desejo.
E não me esfria o ânimo
o friorento rebuçar da noite pálida;
saudosa dama sem amor
sem boa-noite antes do fim.
A eternidade em agradáveis instantes
quando estás bem junto a mim.

Inserida por warleywaf

E nada mais natural, encontrar-me ao relento de meus pensamentos, ao sabor de sentimentos profundos, escondidos àqueles olhares não dispostos a compreender-me. A poesia tem consigo certa loucura, contudo, traz em si, uma grande fé.

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A amizade é ponte que nos leva a encontrar-se no outro.

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Deus irrompe seu silêncio unicamente para nos comunicar Seu amor.

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Mãos Estendidas

Mãos estendidas, elevadas em oração;
calejadas do duro trabalho da lida.
Elevadas ao céus, estendidas ao Pai,
que nos dá o pão cotidiano.
Mãos, de dedos delgados e trêmulos
unhas sujas do toque à terra escura.
Da sacralidade do suor e fadiga num calor fervente.
Mãos sobrepostas e marcadas pelos anos.
Acolhedoras do Sacro Corpo e Sangue;
santas aquelas mãos estendidas humildes
em prece, sem pronúncias, porém,
cheias de significado
De uma vida dura,
mas, de pura gratidão.

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Versos em Quatro Estações

Quatro estações testemunharam nosso encontro
o encanto de seus olhos cor de mel.
Meu sentimento era ingênuo e não sabia:
floria amor na primavera de meu céu.
Seu amigo e ser presença ao seu lado,
enamorado, no entanto, eu fiquei
e amei-te à tarde, pela manhã e até a noite
te procurava, era verão aquele instante.
Amantes a sós no outono se aqueciam
e esqueciam as horas frias apressadas,
das semanas o inverno então rugiu
grunhiu o vento em seus cabelos sobre mim.
Assim, findava nossa história repentina:
naquela mesma estação que nos uniu
primavera veio agora traiçoeira
eira do amor, o sentimento fez-se vil.

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Filtro de barro

A água é indubitavelmente, o líquido por excelência, que refresca a sede. Mas, não apreciei um bom copo d’água como aqueles provenientes de um filtro de barro. Sim, daqueles que se encontram facilmente na casa de toda avó.
Agora, vejo filtros modernos, ligados diretamente à torneira. Filtros com purificadores, filtros com duas opções de temperatura da água: gelada e natural. Até encontrei um filtro automático, apenas se colocava o copo e a água decantava sem interferência humana. Esses tipos de filtros retardatários não matam a minha sede.
A sensação de suprir nossas necessidades básicas quando, em uma situação de extrema vontade, causa-nos uma prazerosa sensação de alívio. Nessa situação, qualquer água serve.
O filtro de barro, por sua vez, possui o método de filtragem mais eficiente e barato do mercado; além de, manter a temperatura da água sempre ideal. É possível sentir um leve gosto de argila, mas, a água continua insossa e potável. O gostinho típico é marca, selo da simplicidade de uma época nostálgica. É! Decididamente, eu jamais hei de comprar filtros modernos.

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Uma lagarta espreguiçada

A tarde chegava mansinha enquanto eu praticava meu instrumento; os sentidos atentos aos sons e posições do dedilhado. A curiosidade instigou-me a fitar os olhos em uma lagarta. Estava ao meu lado, na cerca. Lagarta bonita: preta com certas listas amarelo-pálidos, corpo da largura de um dedo polegar adulto. Um conjunto de patinhas e aparelho digestivo bem planejados.
Enfim, ela estava suspensa na cerca de forma hábil. Eis a razão de minha curiosidade. Com oito pares de patas abraçava-se às hastes da cerca, deixando livre as patas dianteiras. Desse modo, permanecia envergada para trás, como se fosse um exercício de alongamento ou ioga.
Inerte, a lagarta espreguiçada e de vida morosa sugeriu-me pensamentos a respeito de nossas transcendências. Lagarta e homem têm desfechos semelhantes: ser pleno.
Após a eclosão dos ovos, a lagarta verá a vida de baixo. Uma existência carregada de limitações e inseguranças. Naturalmente, seu ofício é alimentar-se de folhas, paciência e esperança. Precisa estar bem nutrida para a metamorfose.
Todavia, a lagarta não conhece a transformação futura a que experimentar-se-á, mas, pode ser testemunha dos voos cheios de cores das borboletas se ergue a pequena cabeça para o céu. Esse bichinho virtuoso, objeto de fobia para muitos, terá de superar as vicissitudes para se tornar plena. E, para alcançar a plenitude, alçar voo rumo ao céu, seu ser viverá cá embaixo, experimentará a harmonia dos contrários, que une o selvagem e o divino no mesmo berço, digo, a vida.

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O templo do coração é construído de pequenos gestos, quase despercebidos, mas, cheios de significados.

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A beleza da criação inebria o espírito de um silêncio extasiante.

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São Francisco dos Empobrecidos

Admira-me, pai Francisco, ver-te, assim, amoroso
tem o Bom Deus em seus braços, ferido de amor.
São as feridas dos pobres, pai.
Os mesmos flagelos que se perpetuam pelos séculos.
Nas páginas escritas com o sangue de negros e sangue de índios
misturam-se o sangue sagrado dos empobrecidos.
Por força de ordem crucificam o Cristo com cravos de cifrão em uma cruz capitalizada.
Mas, não se deve pronunciar à respeito. O silêncio é deveras obrigação.
E, não bastasse tantos corpos tombados, amigados com a liberdade;
outros tantos, seguem, vitimados pelo progresso.
Para estes, as migalhas que caem da mesa são acompanhadas de uma taça de suor.
Vê, pai seráfico! Em teus braços magros abarcas o que digo:
o amor e a pobreza descansam da sina desta noite sem fim.

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