Vinicius Rodrigues
crisálida;
fui silêncio,
mas as palavras me transbordaram.
fui abrigo,
mas ninguém ficou para a reconstrução.
me despedi de quem fui,
carregando cicatrizes como mapas,
navegando por mares de arrependimento,
com velas feitas de culpa.
enterrei meu velho eu
como quem planta uma dúvida.
e esperei.
esperei que asas brotassem
onde antes havia correntes.
mas a metamorfose é lenta,
e no casulo do tempo,
a dor é a primeira a nascer.
sou pó de memórias,
sou o eco de antigas promessas,
sou a espera do que ainda pode ser.
e se um dia eu voar,
que o vento me leve
sem medo de cair.
aritmética das ausências;
um dia descobrimos que beijar alguém
para esquecer outra é como tentar apagar o sol com as mãos:
não só a luz persiste,
mas é sua sombra que nos cega aos poucos.
percebemos que a caça ao prazer
seja delas ou seja minha
deixa cicatrizes que não sangram,
mas doem como feridas antigas.
um dia entendemos:
apaixonar-se não é escolha,
é cair de um penhasco
e descobrir que o chão
é mais macio do que o medo.
as provas de amor não estão nos gestos grandiosos,
mas no café frio que ninguém bebeu,
no silêncio compartilhado
quando as palavras já não bastam.
e o entendimento reside na quietude.
um dia saberemos:
quem nunca te liga
é quem carrega teu nome
como um segredo pesado no bolso.
e, sem saber,
somos o peso de uma ausência em alguém.
porque a pior saudade
não está no telefone que não toca,
mas nas fotos que ainda não tive coragem de apagar.
ao menos, em minha experiência.
sentimos a falta de um amigo
quando o telefone toca
e do outro lado só há vento.
um dia entendemos que a vida,
mesmo que longa,
é curta demais para beijar todas as bocas
que nos chamam,
para dizer tudo o que nos queima por dentro.
resta-me escolher:
aceitar o vazio
ou incendiar o relógio
e dançar nas cinzas do tempo.
quase real;
sou o homem nada.
não compactuo,
não pertenço,
não sou.
vejo tudo,
mas não enxergo…
sinto tudo,
mas não vivo.
me movo,
mas não caminho.
sou engrenagem de um relógio,
sem o tempo me carregar com ele.
o tempo passa por mim,
mas nunca me leva.
não sou lembrança,
apenas memória…
ainda assim,
eu sonho
em ser,
em ver,
em ter.
em me encontrar
sem me perder…
mas o nada me abraça,
e eu retorno,
já querendo partir,
já querendo sumir.
como se nunca tivesse estado aqui,
como se a inexistência fosse meu único vestígio.
mas no vazio que me cerca,
uma voz sussurra meu nome…
e por um instante,
quase me sinto real.
espelho quebrado;
como ouso amar,
se não sou amável?
como ouso julgar,
se sou imperfeito?
como ouso rir dos outros,
se a piada sou eu?
como me atrevo a sonhar,
se estou acorrentado no chão?
como ouso cobrar lealdade,
se eu traio?
como ouso gostar de alguém,
se me odeio?
como me atrevo à sensatez,
se eu sou a hipocrisia?
sou a mentira que condeno.
sou o erro que aponto.
sou o meu autoaprisionamento.
sou tudo o que enxergo em mim e condeno nos outros.
sou a sombra dos meus próprios julgamentos.
sou um espelho quebrado
meu reflexo distorcido
e, no entanto, ainda respiro,
ainda espero,
ainda sonho.
...
e, talvez um dia, em um kintsugi,
pinte meus trincos de ouro.
equilíbrio;
quando imaginei o fim,
percebi que era apenas o começo,
e que a vida adiante não era muro,
mas estrada aberta a surpresas.
descobri que nada se perde sem custo,
em cada escolha, uma renúncia,
linhas invisíveis
cortadas à lâmina de dois gumes
do que decidimos ser
e para onde ir.
às vezes, o coração pede tanto
que a alma viaja pra buscar
te encontrar
e achar a nós.
a esperança é a última que morre,
mas quando morre,
arde como brasa nos pés.
amar é alimentar o fogo,
sem deixá-lo apagar,
sem permitir que nos consuma.
é o carvão que aquece,
mas queima se esquecido,
é chama que dança,
mas fere se solta ao vento.
e entre o frio da ausência
e o ardor do excesso,
só o equilíbrio mantém o amor
aceso sem destruir.
sangue e lápis;
aqui é onde me liberto
me encontro em mim
correntes e simbolismo
escrevem em mim
me perco e me refaço,
encontro-me nos versos
refúgio abstrato,
alma enfim segura
depois que te conheci,
ó poesia,
dei forma ao caos
que antes era torto
antes de te conhecer,
não me conhecia,
me observava
e não me entendia
quando te conheci,
meu eu-lírico,
me apaixonei por ti
e te incorporei em mim:
é meu sangue
meu respirar
minha voz silenciosa
dou forma à dor,
amplifico-a,
só para que ela
se enfrente ao lápis
transformar meu medo
em palavras,
angústia em ritmo,
e o silêncio, em mim,
vira canção
e me dissolver
na escrita,
morrer no papel
para renascer
em cada linha
no dia em que parar de escrever,
será o dia que morreremos juntos
meu verso e meu peito
victória;
há algo dentro de mim,
um nome que nunca se diz,
preso nas sombras do tempo,
repetindo-se em silêncios.
corri entre braços tortos,
tentando escutá-lo nas batidas
de corações que não eram meus.
me entreguei em camas rasas,
onde o calor de outros corpos
só me deixou mais frio.
procurei nos vestígios,
no bordado de lençóis,
nos toques que não deixaram marca,
nas cicatrizes invisíveis
que deixei em pele alheia.
e me parti aos poucos,
em cada movimento vazio,
em cada palavra não dita,
em cada olhar que não me tocou.
ainda assim, segui,
por caminhos que não prometiam chegada,
perdido nas ausências
que talvez existissem,
ou talvez nunca tivessem sido.
mas o nome permaneceu,
indecifrável,
como um eco que se esconde,
sussurrado na madrugada,
nos reflexos que se desvanecem.
agora, me encaro
e vejo o vazio que busquei preencher,
como uma pele que se rasga sem fim,
como braços que nunca souberam
o que é abraçar de volta.
procurei no asfalto cinza,
no vidro preto dos carros brancos,
algo que não me pertencia,
algo que ficou no ar,
e que nunca pude tocar.
havia algo insaciável
na fome que me consumia,
no desejo de algo que nunca se dizia,
nesse nome que jamais me chamou.
sempre te perseguindo,
num ciclo que nunca terminou,
tentando me encontrar
no que me faltava,
neste nome que permaneceu
como uma promessa sem rosto.
e agora, me pergunto:
se um dia te encontrar,
será que saberei reconhecer?
ou seremos apenas dois estranhos,
perdidos nas nossas próprias sombras,
condenados a nunca nos encontrar?
talvez você nunca tenha existido.
talvez seja só um reflexo
do que nunca pude alcançar.
insetos;
a criança brinca,
raspa os joelhos no asfalto.
entre formigas,
as vê carregando tijolos,
devorando ovos,
mordendo companheiras.
observa besouros sob folhas secas
e pisa — a vida
esmaga.
o jovem canta pneu em estradas falsas,
bebe promessas de bares sujos.
procura-se em soldados,
encontra:
refúgio
nas que rastejam;
mulheres baratas.
o adulto afoga o relógio no álcool,
engole dias
saudade seca.
o trabalho vira razão,
não pensa,
não sente,
abraça o conforto —
e cospe folgas
no cinzeiro do chefe.
crueldade precoce e,
caminhos engessados
cuspidos por máquinas.
sociedade autofágica:
faca em punho,
esfaqueia ponteiros
sangra calendários
e ri.
meritocracia insetóide:
asas podres,
pernas peludas,
seis olhos.
devora a prole
bota ovos
e ri.
e o velho encara retratos:
procura suas asas
rugas inundam o rosto
o tempo, o ladrão
que deixou
ossos em pele frouxa
e perguntas
sem resposta
e as formigas
comem olhos
no buraco
que ele mesmo
cavou.
lápide de açucar;
atravessando a rua, fui atravessado.
caminhão de sorvete me deixou gelado.
chocolate e sangue, doce e amargo,
rosa, azul e um branco pálido.
dançando juntos em cima do asfalto,
corpo fechado, pé numerado.
meu túmulo caramelizado,
que jeito melado de morrer.
e apesar da dor, virei sabor:
sorvete derretido, perdeu o valor.
agora sou história,
verso travado,
epitáfio doce
e congelado.
luxúria;
me vi em navalhas:
preto engoliu branco,
afeto sangrou agressão,
orgulho devorou o amor.
arranquei meus olhos —
agora as rosas brotam
onde restaram os buracos.
mordi frutas brilhantes
e mastiguei vermes
apenas para cuspir
seus caroços podres
e escolher estátuas douradas
com vísceras de barata:
beijei-lhes a boca
até engolir as asas.
e no rastro do desejo,
só restaram cinzas de abraços
e retratos sem face.
transformei camas em altares,
mas nenhum deus respondeu
às preces que sussurrei
entre pernas e gemidos.
nessa piada que me conto
enquanto me fodo —
só restam sílabas grudadas
e pegadas na poeira
da casa vazia
que já foi peito
antes de ser tumba.
orgulho;
no topo da prisão,
rei sem reino.
tranquei as celas —
encarcero e me aprisiono,
coroado pelo ego.
governo eu mesmo,
morro em mim,
mas não me curvo —
carcaça ereta,
mente cerrada.
voo acima de todos,
anjo de asas de couro.
no topo da colina cinza,
cuspo na miséria
que recuso a ver.
me ergui em chamas
e queimei a cidade.
governei o caos,
liderei a loucura.
egoísmo cego,
ouro falso.
e quem precisou,
virei a cara.
ego cheio,
coração oco.
queixo erguido sobre espinhos,
coroa em brasa.
e no fim, só restou o cheiro:
o santo churrasco,
primeiro que saboreio —
banquete de rei,
minha carne queimada.
sucumbo, enfim,
ao trono que ergui.
construção vazia.
ruína certa.
avazera;
farto, sem fome.
taças de cristal
transborda cianeto.
cobro juros
da água benta,
penhoro a hóstia,
pago até
meus 10%
para comprar casas no céu—
e os anjos trancarem as portas.
o amor? em leilão.
parcelo afeto,
cobro taxa
por abraços.
não devolvo,
mesmo emprestado —
são meus.
engulo moedas,
asfixio-me com níquel,
tossindo sangue
e centavos.
cheques sem fundo,
cheios de zeros—
cheios mág00000as.
peso ouro
na balança,
mas minha alma,
ainda segue:
com Rayban escuro
e carro importado,
minha falência
espiritual.
nos bolsos pesam
cédulas pretas,
alianças sem dedos,
e mendigos sem nome.
notas falsas
não compram vida,
mas Caronte aceita
cem dólares.
mesmo assim,
não entro no barco—
ele sabe:
não pagaria.
mas comprei terreno,
e construí mansão.
no meu gigantesco
umbral dourado.
IRA;
herdei do meu pai
um fogo engarrafado,
que ele herdou do avô
como herança de terra rachada —
pólvora seca na garganta,
ourobóricamente amarga.
grito contra o mundo.
as paredes explodem eco.
estourei os tímpanos;
os ouvidos sangram silêncio.
esmurro pontas de faca,
salivo ácido,
mastigo pregos.
me calo, mas fervo.
sublimo atos de cólera,
transpiro ódio em gotas
que corroem até o chão.
busco a paz
em meu próprio genocídio —
o capitão nascimento
atira no meu peito
e ri da bala perdida.
sou minha própria anátema,
injustiçado na fúria,
coração engatilhado,
marca-passo de pólvora.
rancor escarlate
com nome de filhos.
herança sangria:
vendaval de ruína,
semente de dinamite
germinando em útero.
testamento cinza:
até o fogo cansa
de queimar o mesmo inferno.
resto a gólgota
em meu esperor.
eterno retorno;
existo sem sentido,
parado no mesmo lugar,
enquanto o mundo gira
e eu giro dentro dele.
repito ciclos,
como um disco riscado
que sempre pula no mesmo verso,
na mesma frase que não termina.
não sou Sísifo,
sou a própria montanha,
o chão que desaba
a cada passo que tento dar.
não carrego pedras,
carrego perguntas,
e elas pesam mais
do que qualquer rocha.
pego o celular,
não finjo nada.
rolo a tela como quem revolve
cinzas de uma fogueira
que nunca aqueceu ninguém.
ouroboros sistêmico,
mordendo o próprio rabo,
enquanto o tempo escorre
pelos dedos que não seguram nada.
sou o ciclo que se repete,
a espiral que desce,
existo sem sentido,
parado no mesmo lugar,
enquanto o mundo gira…
e eu fico aqui.
encerramentos;
evito correr, decido encarar
essa verdade
que insiste
em queimar.
observo, impassível,
meus devaneios.
disfarço o pranto
no olhar.
um vulto disforme
ocupa o peito,
sufoca o ar,
apaga o suspiro.
transforma em angústia
o abraço—
laço eterno,
fogo que não finda.
ainda assim,
apego-me ao ciclo,
espiral que se alonga
no tempo.
há eras
deveria tê-lo rompido,
mas nego-me
a deixar o fim vir.
entre a dor e a cura,
escolhi sangrar.
a saudade virou
meu alimento.
recuso a despedida,
ela é agora
o último vestígio
do que fomos.
e se um dia
a saudade se extinguir,
será o vazio
o fim do caminho,
ou apenas o início
de outro ciclo
que, outra vez,
recuso o fim?
preguiça;
o dia se arrasta,
e eu rastejo junto.
o tempo passa,
e eu fico-
letárgico,
estático,
a cada balançar
desse torto pêndulo
que me esmurra na cara
e zomba de mim.
criei raízes
de carne e tédio
no meu sofá-
pele e couro
fundidos pela minha
falta de vontade.
espero mudanças,
mas não faço acontecer.
espero sentado
que o céu caia
e me esmague
como uma barata
sob o pé do homem.
sento em silêncio
e contemplo a tela-
Deus virtual
que boceja a alma
e me aliena
por completo.
inércia viscosa,
sem meta ou desejo.
ausência da vontade
de estar aqui,
de respirar.
respiro lento,
olhos pesam,
não de sono,
mas de um cansaço
que não dorme.
se nunca mais levantar
não importará.
o mundo segue,
e eu fico-
preso em mim,
morto na encosta,
esperando a mudança
que nunca vem.
vira-lata;
mesmo sem carne,
roo o osso.
rosno, babo.
é meu.
mostro os dentes—
ninguém encosta.
curvo, cavo,
te enterro.
quebra os dentes,
não enche estômago.
tutano egóico,
por ser só meu.
ode aos mortos;
brindo-lhes
as memórias
de todos
que se foram—
fantasmas
que habitam
meu passado,
bebendo
minhas lágrimas
como vinho.
ao seu legado,
aquilo que foi
construído
e desmoronado:
ruínas
que carrego
no peito,
pedras
que nunca
viraram pão.
momentos únicos,
fincados
na carne da memória—
feridas,
sangrando
abertas,
como portas
que não levam
a lugar nenhum.
na infinitude do tempo,
no deserto da vida,
imensidão de areia
que enterro
perguntas
e vestígios.
levanto o copo
aos que ficaram,
mas não estão
mais aqui:
espectros que
bebem meu vinho
e deixam
o copo vazio,
sussurram
promessas
que não
se cumprem,
como flores
que murcham
antes de nascer.
que seu jazigo
perpétuo
lapide
o futuro
daqueles
que morreram
em vida—
e que eu
seja
seu fardo
mais pesado,
um monumento
ao que nunca
foi dito.
um brinde
a mim:
o coração bate,
os ossos doem,
a alma seca
como um rio
que nunca
vai ao estuário,
arrastando
consigo
o que sobrou
de mim.
o legado póstumo
deixou um véu
de saudade
e pálidas
perguntas,
como lápides
sem nome
em um cemitério
esquecido.
a todos
que desfalecem,
letárgicos amigos:
desejo-lhes
saúde—a vida,
ou, ao menos,
um túmulo
onde eu também
possa descansar,
enquanto o tempo
nos devora
a todos.
porta;
passam velhos, passam jovens,
passam felizes, miseráveis.
passa a vida,
e ninguém nota.
abre, fecha.
fechadura seca,
chave de carne,
pulsa, sangra,
expulsa.
soleira, solitária.
passam mulheres,
ciganas, anjos,
feias, magras, gordas,
felizes, miseráveis.
meus pecados
que rangem
nas dobradiças
inquestionáveis.
passo, tropeço,
nunca reparo
como algo tão simples
meu batente
abre as portas
do meu peito
trancado.
butiquim enferrujado—
agora fecho.
maçaneta dura, travada.
viro a chave,
cerro o quarto.
não vem, não vai,
não leva,
não trás,
não volta,
não abre mais.
gula;
excessos e satisfação
nutrição perversa
não enche estômagos.
engulo coisas tortas
e permaneço vazio,
bocas insaciáveis
corpos devorados.
anseio pelo excesso,
nunca satisfeito,
mordo o vácuo
e cuspo o nada.
bares gordurosos,
fígados hepáticos,
fuligem preta na garganta.
mordo a língua
e bebo sede.
roí unhas ao osso,
bebi água do mar,
mastiguei pedras—
ainda assim, faminto.
e de não encontrar,
canibalismo infinito,
me mastigo em ciclos,
autofagia sem fim,
engolindo dentes
e cuspindo pó.
simbionte;
enterrado sob minha pele,
reside uma inquietude,
e sobre ela, mora você.
escondida dentro de mim,
me coçando para te tirar,
rasgar minha pele,
deixar sair.
se alimente de mim:
da fuligem em meus pulmões,
do eco de quem fui,
daquilo que ainda há de pulsar
em meu peito.
e mesmo sentindo você rastejar,
quero que fique.
minha companhia
desagradável.
então, devore aquilo que ainda bate,
sorva-se do meu silêncio,
engula meus sonhos,
coma as migalhas da minha felicidade.
simbiotismo parasitário:
andando em círculos,
consumindo pedaços de mim,
já sem lembrança de forma,
sem saber existir sem órgãos,
sem ti.
mergulhe nas profundezas de minhas entranhas,
e ao devorar o que fui,
refaça-me à tua imagem,
para que eu, ao menos, sobreviva.
e ao fim,
quando eu não for mais que casca,
quando nem vísceras restarem,
que sobre apenas
o eco de tua fome.
supino;
se um dia me ler,
saiba:
exagero na tristeza
só para escrever
linhas tortas.
sou melancólico,
dramático,
exagerado.
mas só porque
as vezes,
não acho nada melhor
pra fazer.
e se pareço intenso,
é porque carrego ausências
como quem guarda cartas
de quem nunca respondeu.
me perco em abstrações,
nessa coisa sem forma
que chamei de poesia
por falta de outro nome.
às vezes, confundo lembranças
com desejos
que nunca aconteceram.
e insisto
porque prefiro
ter o que escrever
ao vazio.
na vida real, sou leve,
tranquilo,
sem o peso
do grafite.
escrevo para me livrar,
não para me prender.
porque o que escrevo
morre no papel
e não em mim.
ferrugem;
mãos manchadas
de cobre
e pó.
gosto metálico
no céu da boca
metais nobres
que corroem
a bile.
engulo ferro,
mastigo pregos.
água alcalina
que insisto
em beber.
antes mel,
mas só sobra
ácido
no estômago
para digerir
os metais
que tinem
ao cair
no meu
umbral
interno.
que o tempo
e o vento
descasque
as crostas
de óxido
marrom—
vermelho
de minha
carcaça,
deixando apenas
ossos
e poeira
e restos.
sem peso,
sem culpa,
sem
nome.
gasto dentes
de ranger
à noite,
gravados
como lapidação
em rocha
dura.
sorrio
enquanto as palavras
oxidam
no céu
da boca,
solução férrica
desgasta a mandíbula,
tornando o terno
suave
em gosto metálico
que vira
silêncio em
minha
língua.
o sol reflete
em sangue seco,
_ouro falso,_
peça de teatro
em fábrica
abandonada.
atribuí papéis
que não me cabiam:
palhaços de cobre
dançam
nas máquinas,
sorrindo em
baritas,
mãos erguidas
em aplausos
mudos,
zombam de mim
com risadas que
nunca se
desgastam
como
aço
velho
aço corta.
aço
zuni.
lingotes
vermelhos
derretem
seringas
de vidro,
escaldando
palmas,
como da
última
vez
que tentei
segurar
aquilo que
nunca
pertenceu
a
mim.
_foligem verde_
assola
lares,
flores,
bares,
bocas,
peitos,
sombras
e o que
por ela
passa
encontra
desgosto
fosco,
que nunca
saberá como
é viver
cromado
no prata,
no preto,
na sombra,
na luz.
tudo vira
lama,
barro,
vira ferrugem,
vira
nada.
apático silêncio
engulo
pois
é mais
doce
que a culpa
escarlate
que corrói
meu sangue
e o deixa
laranja.
sorrio dentro,
sem fingir
pra mim,
enquanto o rancor
me crava
como um prego
na carne
queimada.
asas cortadas
por serra cega,
rasgando
as costas,
me soldando
ao chão,
preso em ciclos,
até eu juntar
as pratas
penas,
lâminas
retorcidas
e parafusá-las
nos ossos
que não me deixam
voar.
ódio ferve
nas veias,
evapora
ácido
nos poros,
nos deixando
um cheiro
de solda,
enxofre,
na derme,
parafusos soltos
transpirando
raiva.
cuspo porcas,
bebo lava,
mastigo
rebite,
prendo
pregos
e tudo
recomeça,
_zinabre doce._
até não sobrar
nada.
e,
quando o último
metal
se desfizer,
quando a última
lâmina
se esvair,
restará apenas
o eco
de um tilintar
distante—
do som
de mim,
ferrugem
eterna.