Salman Rushdie
No que tenho de pior sou uma cacofonia. Uma massa de huidos humanos que não se somam numa sinfonia de um ser integrado. No que tenho de melhor, porém, o mundo canta para mim e através de mim como um cristal.
É a função do poeta: nomear o inominável, apontar as fraudes, tomar partido, despertar discussões, dar forma ao mundo e impedir que adormeça.
Em Cambridge, me ensinaram um método louvável do argumento: nunca personalize, mas não tenha absolutamente nenhum respeito pela opinião das pessoas. Nunca seja rude com ninguém, mas seja brutalmente grosseiro com o que a pessoa pensa. Esta distinção me parece fundamental: as pessoas devem ser protegidas contra a discriminação em virtude de sua raça, mas não cabe uma vala protetora em volta de suas ideias. No momento em que que disser que um sistema de ideia é sagrado, seja um sistema de crenças ou uma ideologia secular, no momento em que declarar que um conjunto de ideias deve ficar a salvo de toda crítica, sátira, deboche ou desprezo, a liberdade de pensamento se tornar impossível.
A linguagem é coragem. É a capacidade de conceber um pensamento, de falar. E ao fazê-lo, devemos tornar a linguagem real.
Sociedades livres são sociedades em movimento; e com o movimento vem a tensão, a dissidência, o atrito. Pessoas livres soltam faíscas, e essas faíscas são a melhor prova da existência da liberdade.
A memória tem uma função especial. Ela escolhe, elimina, altera, exagera, minimiza, glorifica e vilipendia também. Mas, no final, ela cria sua própria realidade, sua versão heterogênea, mas geralmente coerente, dos eventos. E não há pessoa sensata que confie em uma versão mais do que na sua própria.
Um livro é uma versão do mundo. Se você não gosta, ignore-o; ou, em troca, ofereça sua própria versão.
Existe uma felicidade profunda que prefere a privacidade, que floresce longe dos olhos do público, que não exige a validação de ser conhecida: uma felicidade que existe apenas para as pessoas felizes, que é, em si mesma, suficiente.
Não foi Deus que nos transmitiu a moralidade. Fomos nós que criamos Deus para personificar nossos instintos morais.