Gabriel Hayashida de Arruda
Sinto-me como alguém que, entre a fenda do céu e do inferno, tropeçou numa porta que guarda os arcanos do universo. Pela fechadura, vi Deus repousando no bosque sagrado de Manre. Contudo, tal como os sonhos que se dissipam com a aurora, perdi a chave desse segredo metafísico. Desde então, vivo com a angústia apertada no peito hipotético, condenado a buscar incessantemente o mistério por trás da porta, por trás dos seres, por debaixo das coisas.
Quase...
Deixarei que partas, que morras em mim.
Fomos quase amigos, quase amores, quase amantes.
Mas o "quase" é um lugar sem mapa,
um espaço suspenso entre o agora e o nunca.
E agora resta-nos a dolorosa certeza do nunca,
do adeus, da saudade e dos pensamentos sobre ti
que em mim habitam.
Penso em ti, e não sei se, em teus pensamentos,
ainda me buscam as mesmas lembranças.
Hoje, sentei-me à mesa da minha alma, e comigo estavam todas as minhas versões. Diante de todos os meus "eus", encontrava-se Deus; e, neste ritual sagrado, o silêncio envolvia-me.
A criança pensou: "Meu Pai, em Ti confio." O ancião pensou: "Mestre, ilumina os meus passos."
O tolo pensou: "Deus, por que me abandonaste?"
E o sábio pensou: "Senhor, perdoai-me e livrai-me de mim."
E Deus, inclinando-se sobre mim, sussurrou em meus ouvidos palavras de doçura. E eu chorei como uma criança recém-nascida, como um ancião moribundo, como um tolo e como um sábio.
Pergunto se ainda há um tempo em que o tempo se permita amar,
E se existe mar onde a sede se encontra, como há sol para quem ao frio se entrega.
Talvez amar seja a essência do ser enquanto algo,
E o amor, talvez, não seja mais que a ausência do ser em algo.
Amanhã talvez eu seja feliz...
Hoje me senti um estranho neste mundo,
alguém que se perde nos becos da alma.
Não pertenço a nada, nem a ninguém,
sou uma marca na areia
que a maré apaga sem pressa.
Ontem, me perdi entre o que sou e o que sonho ser,
sem saber quem sou,
nem para onde vou.
Meu coração é um aterro,
um amontoado de sentimentos despedaçados,
palavras que ficaram presas na garganta,
presas na rotina que me apaga,
me mata devagar,
sem trégua,
mas com a certeza silenciosa
de que o tempo me consome.
Hoje, menti a mim mesmo,
e menti a você também,
disse palavras que não calavam,
disse que amava,
disse que me importava,
mas eram palavras vazias,
como promessas que o vento levou.
E, perdido nas memórias,
senti a saudade como um desconforto na alma,
algo que não se explica,
mas se sente,
como a dor do que nunca se teve.
Ontem, lembrei de você...
Hoje, olhei o celular e encontrei sua foto,
como quem encontra um pedaço de infância
escondido no fundo de uma gaveta.
Hoje, senti saudades…
E a dor, que já era minha amiga, voltou,
mais forte, mais intensa,
como um amor que nunca se vai.
Minha pobre natureza é perseguir a felicidade com a mesma insistência de um cachorro de rua correndo atrás da roda de uma bicicleta que gira sem fim.
Minha confissão...
Hoje foi o dia do meu último exame.
Com as mãos trêmulas, entreguei a prova, sem ânimo.
O mestre, com seu olhar sereno, mas impiedoso, perguntou:
"Que nota devo dar-te?"
Fiquei em silêncio,
E o silêncio foi o meu mais sincero exame de consciência.
Lembrei-me do ano que vivi,
E vi que falhei não apenas nas aulas,
Mas em tudo:
Nos estudos, no esforço, nas promessas feitas
A mim mesmo e ao que eu deveria ser.
Fui ausente, incapaz,
E o resultado da prova foi o reflexo do meu descaso.
Pensei, então:
Seria justo dar-me um 10?
Seria justo, após tanta negligência,
Receber o mesmo que aquele que se entregou,
Que se dedicou?
E, se assim fosse, qual seria a verdade?
Minha vida tem sido uma sucessão de mentiras.
Falhei na oração, no rezo, na missa;
Falhei no essencial, como quem falta a si mesmo.
E, diante do Senhor, como poderia justificar minha farsa,
Meu abandono?
Só há uma resposta honesta:
"Dar-me um zero, e lançar-me ao inferno,
Se assim for segundo a justiça de Deus."
O que há de mais justo do que minha condenação?
E o que há em minha aprovação senão uma injustiça?
Fui um péssimo aluno, Senhor,
E Tu foste o Mestre perfeito,
Com tua sabedoria infinita, com teu amor sem fim.
Como posso eu, um pecador,
Que falhei em tudo,
Olhar nos Teus olhos e considerar-me digno
De um galardão que só existe na mente dos que vivem no engano?
Como?
Paulo, disseste que tu eras o pior dos pecadores,
Mas, se me conhecesses, saberias que sou eu o pior!
A morte não me assusta.
Não mais.
Ela chega de mansinho,
puxa uma cadeira, cruza as pernas
e me observa em silêncio,
como quem espera o fim de um café frio.
Eu respiro fundo e finjo que não a vejo.
Acendo um cigarro, mexo na xícara,
brinco de ignorar o inevitável.
Mas sei que ela está ali — talvez sempre estivesse.
E isso me arranca um riso sincero.
Não que eu não ame a vida.
Amo. Mas, às vezes, a vida pesa,
vira conta vencida na gaveta,
pedra no sapato.
Às vezes, ela pede trégua,
e eu, sem jeito, sigo a marcha dos desesperados.
Então, a morte chega sem anunciar.
Não bate na porta, não tosse no batente.
Apenas entra, senta,
ajeita o capuz do manto
e me olha, como quem diz:
"Você sabia que eu vinha."
E eu sabia.
Desde sempre.
Ela não é susto, nem castigo, nem fim.
É como uma palavra mal dita
que o poeta decide engolir.
Um fardo que escorrega dos ombros,
um corpo que desaperta e, enfim, flutua.
E, no fim, talvez seja isso.
Não um adeus, mas um aceno comedido.
Só morre quem viveu, quem gastou os sapatos,
quem aprendeu a tropeçar sem medo.
E eu?
Eu aceito.
Porque talvez só quem morre entenda, por fim,
que viver sempre foi um jeito
— sutil, distraído, inescapável —
de ir embora.
Hoje me disseram: "Queria entrar na sua mente e desvendar seus pensamentos."
Irônico... eu só queria escapar da minha e não pensar em coisa alguma.
Cristo, na cruz, clamou ao céu:
"Pai, por que me abandonaste?" —
e até o próprio Deus silenciou diante da dor de Seu Filho.
Se Cristo, puro e imaculado,
sentiu o peso da ausência do Pai,
que restaria a mim, infeliz, senão a vergonha
de ainda continuar a existir, quando a morte já me seria mais justa?
E se aquele madeiro bendito,
que a tudo redime, me parece tão distante,
é porque meu sangue clama mais pelo barro
do que pelo céu.
Por isso, não ergo minha voz aos céus,
pois não sou digno de que me ouçam.
Não clamo a Ti, ó Deus Misericordioso,
porque o Céu não é para quem duvida,
e eu, que não sei sequer se existo,
como ousaria esperar que Deus me ouvisse?
Anjo do Senhor, se me escutas,
ensina-me ao menos a chorar pelas minhas faltas.
O homem, em sua cegueira, ergue o olhar ao céu:
"Morte, por que me abandonaste?" —
Cristo chamou pelo Pai porque, mesmo na angústia, sabia-se Seu.
Mas eu, fraco e tolo, chamo por ti, ó Morte,
porque já nem sei a quem pertenço.
Ser poeta é não ser mais que sentir,
É estar distraído de si, sem pensar,
E deixar que a alma se venha a despir.
Não sei quem me fala, lá no fundo do peito,
Se sou eu, ou um outro que finge que sou.
Mas eu, criança demais pra mentir,
Aponto o dedo e digo o que vejo ser.
O rei desfila despido, e ninguém lhe diz nada,
Pois crê-se vestido de orgulho e poder.
Mas eu, que me vejo de carne lavada,
Desnudo-me ao mundo, sem medo de o ser.
Ser poeta é uma forma de existir sem estar,
De ser sem ter corpo, de ver sem olhar,
Sabendo que nunca se deixa de estar.
Dizem que fomos feitos do barro,
E que o barro nos fez gente.
É certo — viemos da lama,
Fomos feitos do lodo que sobra quando os deuses lavam as mãos.
Mas o que sei eu dos deuses?
Vi mãos sujas, dedos gastados moldar algo eterno,
E vi a eternidade escorrer por entre os dedos calejados.
O barro que sou é o barro da minha alma,
Deixado a secar sob um sol que é talvez justiça, talvez desdém.
E, contudo, passo pelas ruas.
Aqui está a cidade que me molda,
Onde o homem que vende jornais na esquina não crê nas manchetes,
E o menino que chuta latas sonha com um céu maior do que o quadrado de concreto que o limita.
E eu sou o que a chuva vai desgastando e dando forma,
Como o asfalto que racha sob o peso apressado da história,
Ah, o universo, esse cofre onde guardamos segredos sem chave,
E as estrelas olham-nos com o olhar indiferente dos que sabem mais do que nós,
Enquanto retribuímos com as nossas poesias baratas.
E o cosmos ri de mim, ou ri de todos,
Mas isso, de fato, não importa.
Sou barro que ousou pensar além de sua própria substância,
Que cravou os pés na terra apenas para sentir a água subir e encharcar.
Deixem-me dissolver na chuva,
E voltar ao ventre fecundo que nunca julgou forma ou função.
Se os deuses existem, que lavem as mãos outra vez,
E me levem na sujidade da água.
O instrumento que o poeta toca não se vê aos olhos,
não faz acordes, nem pode ser escutado pelos ouvidos.
O poeta é o instrumento,
e, se vibra, vibra com a própria vida.
Mas, se cala, cala-se não pela ausência,
mas pela dúvida:
será o som que sai mais que um simples barulho?
O músico tenta tocar o mundo
como quem afina um piano quebrado.
Mas o poeta, ah, o poeta é o mundo,
em todas as suas notas desajustadas e desarranjadas.
O músico, com sua partitura,
tem os dedos certos,
mas o poeta, ah, o poeta,
não tem mais dedos que o próprio instante.
O músico se orgulha do som que cria.
O poeta, esse, se espanta
com o que não pode ser tocado,
e talvez,
no fim,
seja o poeta quem, por fim, toque.
Hoje, fui até a janela.
E lá estava ela,
tão perto, mas tão distante,
entre o vidro e a luz que entra pela fresta.
A vi. Jovem, bonita,
como quem não quer ser vista,
mas é vista.
Sorriu. Acenou.
Acenou para mim, ou talvez para alguém
que eu não sou,
alguém que ela inventou,
ou apenas imaginou
do outro lado da rua,
junto a tantos outros que não significam nada.
Quantas janelas existem, e quantas são abertas?
E por um momento, me vi em outra vida:
um homem com coragem,
um homem que caminha até ela,
que diz o que nunca sei dizer.
Talvez um "como vai?",
ou apenas um olhar —
silencioso, sem palavras, sem promessas.
Mas não sei.
Nunca soube.
Eu sou só o homem do outro lado da rua,
um qualquer, um ninguém.
Quantos outros existem,
em cada janela, em cada lado, em cada rua?
E ela, tão real quanto o impossível,
como o céu, como as estrelas,
como esta metafísica que nos envolve,
que permeia o que somos e o que vemos,
mas que jamais entenderemos.
Como o mistério das coisas,
que olhamos e pensamos entender,
mas que nunca saberemos.
E eu, o estranho do outro lado da rua,
sem coragem de atravessar,
sem palavras, sem ousadia de ser:
um ninguém.
E ela, com aquele sorriso,
me vê por um segundo.
Mas será que me vê de verdade?
Ou será que me inventa,
como todos inventam a si mesmos,
como eu invento o que sou?
Então ela se vira.
Ela se vira e vai embora.
E com ela, meus pensamentos,
meus sonhos, minha vida.
E eu, aqui,
do lado de cá da rua,
vendo a vida passar —
a vida vivida e sonhada —
sabendo que nunca farei parte de nada disso.
Nunca farei parte de nada disso,
nem daquilo outro.
Nunca farei parte.
Na arte eu encontro Deus, e encontro a mim mesmo,
Sou apenas aquilo que sou, para lá do que tento ser.
Cada estrofe é um gesto sagrado,
Cada nota, uma reza silenciosa.
O meu coração é um altar que sacrifica hesitações,
Meu corpo, um templo sem portas e paredes.
O pincel é como um incenso que sobe ao alto,
Unindo o traço ao mistério de criar,
Onde o invisível ganha forma e o impossível torna-se real.
Na criação, tudo faz sentido, e nada é banal,
Foi este o primeiro ato divino: o ato de criar.
E não há fé maior que a coragem de moldar,
De dar forma ao barro.
O mundo é minha igreja vasta e imensa,
Cada gesto genuíno é como um sacramento,
Onde o infinito encontra espaço no instante.
Na arte, o Eterno revela-se próximo,
E comigo fala, e comigo fica, em uma eterna comunhão.