Romance
Romance é fantasia.
Só funciona quando alguém escreve o roteiro.
Paixão é ilusão.
A gente se apaixona pelo que falta em nós,
não pelo que o outro é.
Quando a ilusão acaba,
não acaba o amor.
Acaba a mentira.
E aí vem a pergunta
que ninguém quer responder:
Você ama
ou só gostava de não estar sozinho?
Amor é construção.
Cansa.
Dá trabalho.
Obriga a escolher todos os dias
a mesma pessoa.
Quando um cai, o outro ajuda.
Mas às vezes
os dois estão caídos
e ninguém fala sobre isso.
Talvez amor não seja felicidade.
Talvez seja responsabilidade.
E talvez
nem todo mundo
queira amar de verdade
Romance: Antes que o pó volte à terra: nunca é tarde para amar
A incerteza do quanto ainda nos resta em nossos relógios internos é um chamado para abraçar cada momento, cada fôlego, como um tesouro precioso.
Romance: Antes que o pó volte à terra: nunca é tarde para amar
"Não é uma questão de fazer as dores desaparecerem, mas de aprender a carregá-las de maneira que você possa continuar a viver.É sobre encontrar significado e propósito, mesmo nas situações mais difíceis".
Eu quero chuva e frio. Quero chá e café. Quero romance e paixão.
Quero tudo e nada. Quero amar e ser amada.
Felicidade saúde paz amor espada romance lutando com a mistura de uma pessoa maravilhosa que mais deixa marca noso como que mais toca mais deixa marca no coração ❤️❤️❤️❤️❤️❤️
A vida é um livro de páginas imprevisíveis,
ora pintadas de romance, ora marcadas por suspense.
Carrega dramas intensos, noites de terror,
e batalhas que nos moldam em guerras silenciosas.
Somos escritores de cada capítulo,
atores de um roteiro sem ensaio,
protagonistas de um único espetáculo:
o filme da vida, que só se revela ao ser vivido.
Fui chama em teu peito, paixão passageira,
Teu zelo era um manto bordado em romance.
Éramos beijos, almas em sintonia,
Um desejo que se jurava verdadeiro...
Mas era apenas o labirinto da minha ingenuidade.
Caminhei anos por uma estrada sem destino,
Buscando abrigo no teu cuidado,
Refletindo meu sorriso no teu riso raso.
Até que o desdém pelo meu saber virou arma,
E a distância, antes dor, tornou-se tua regra.
Teu "respeito" eram mentiras bem vestidas,
Capa de proteção para esconder o abismo.
Desde o tempo em que eu era apenas menina,
E o teu desejo, um incêndio que me consumia...
Hoje o fogo é cinza, o caminho é outro.
O ciclo se encerra.
A história descansa em paz...
Ass Roseli Ribeiro
Romance: narrativa de uma história que não aconteceu, poderia ter acontecido, não acontecerá e que, se for bem contada, será interpretada como mais acontecida do que muito acontecimento.
A paixão não fica menor porque não virou álbum de família. Um romance pode ser pleno, honesto, inteiro e, ainda assim, caber em pouco tempo. O que azeda não é a brevidade: é a cobrança de que toda história precise virar projeto de longo prazo, com meta, cronograma e prestação de contas para terceiros.
''Amor Importuno''
Romance funesto,
amo porém detesto,
rio mas não de felicidade,
e sim de nervoso,
arde tanto,
passando-se a sensação carbonizar o osso,
e quando tomamos conta,
estamos sendo entalado pelo ar do fogo,
fumaça, desgraça,
passamos tempos investindo em nossa morada,
para vir uma maré infortuna
e destruir-se vossa casa,
nesses momentos devemos ser espertos,
trocar nosso lar de lugar
pra uma certa distancia do mar
que não seja muito longe e nem muito perto.
Tá chato já, esse romance ficou pra trás,
tenho coisas maiores correndo atrás.
Aprendi a cuidar da minha própria direção,
e não entregar meu destino na mão de ninguém não.
Já perdi tempo tentando agradar,
agora eu quero é me valorizar.
O espelho me mostrou uma nova versão,
mais forte, mais livre e cheia de determinação.
Helaine machado
Um grande amor é o retrato revelado de uma grande amizade, a diferença é que no romance a foto permanecerá sempre colorida
Flores da madrugada serenas faces
Petulância se tornou romance
Então a luz te deixou .
Num penhasco de emoções me torturei
Pois a cada monto que sonhei esperei estar ao seu lado...
Mais nada nem ninguém ousou ferir meu coração tão profundamente que mundo terminou...
As flores secaram o deserto do seus olhos buscam vida meus olhos.
Mas jas a origem de um sentimento puro para aonde foi embora nunca mais voltou...
Sendo sensatez ganha sombras num novo tempo de lucidez a tenho como novo amor que começou as flores antes mortas ganham vida resiste em mais um momento irônico do tempo se torna o temporal.
Ao encontrar um passeio para seu romance não se esqueça de fazer a balize correta, de modo que não esbarre o coração pretendido.
Onde anda o Romance?
Talvez no facebook, orkut, msn, ...?
Onde andam a Conquista, a Paquera, onde se esconderam meninas?
Mulheres romanticas? Meu Deus me lembro que em algum momento da minha vida eu conheci uma, mais qual era o nome dela mesmo?
Acabou; olhos nos olhos.
Acabou o encanto do brilho no olhar.
Onde está aquele sorriso terno, tímido, semi sem vergonha?
Agora só apenas sorrisos prontos, pelos perfis da rede.
Fotoshop..., meu Deus, quanta coisa artificial, quantos sentimentos artificiais.
O que são serestas mesmo?
Nossa e os luais..., cantavamos, bebiamos, beijavamos, ficavamos felizes, olhando para a lua, estrelas, ao infinito...
Será que acabou?
Onde será que se esconde?
ROMANCE: CLADISSA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro
CAPÍTULO X
As Pedras da Prisão.
A noite descera sobre a Úmbria como um pesado sudário.
Nas profundezas do antigo cárcere episcopal, Irmã Cladissa permanecia sozinha.
A cela era estreita. O odor de umidade impregnava as paredes de pedra, enquanto a escassa luz de uma tocha distante projetava sombras vacilantes através das grades enferrujadas. O inverno aproximava-se das colinas italianas, e o frio infiltrava-se pelas fissuras da construção secular, envolvendo o ambiente numa melancolia quase sepulcral.
Sentada sobre um banco rudimentar, Cladissa mantinha as mãos unidas sobre o colo.
Seu hábito, outrora impecável, agora trazia as marcas do confinamento. Ainda assim, sua postura permanecia serena. Havia em seu semblante uma dignidade silenciosa que nem os carcereiros conseguiam compreender.
Desde sua prisão, muitos dias haviam transcorrido.
As acusações permaneciam envoltas em ambiguidades, tecidas entre suspeitas, intrigas e interesses eclesiásticos que ultrapassavam sua compreensão imediata. O mosteiro do qual viera, situado entre as suaves elevações da Úmbria, encontrava-se distante. Talvez demasiado distante.
Pela pequena abertura gradeada, Cladissa contemplava uma estreita faixa do céu noturno.
As estrelas.
Sempre as estrelas.
Quando ainda era noviça, uma anciã do convento costumava dizer que os céus eram a única liberdade impossível de ser confiscada pelos homens.
Naquela noite, tais palavras regressaram-lhe à memória.
Subitamente, passos ecoaram pelo corredor.
Firmes. Lentos.
A religiosa ergueu os olhos.
Uma figura encapuzada aproximou-se acompanhada por um guarda. O homem carregava consigo uma lanterna e, após breve diálogo com o carcereiro, este afastou-se sem pronunciar palavra.
Por alguns instantes, apenas o silêncio permaneceu entre ambos.
Então, a figura retirou lentamente o capuz.
Cladissa reconheceu imediatamente o rosto.
Era Madre Agnese.
Sua antiga superiora.
Os olhos da anciã estavam marcados pela exaustão.
"Filha", murmurou ela através das grades, "o mundo além destes muros encontra-se em convulsão. Muitos desejam teu silêncio. Outros temem aquilo que sabes."
Cladissa permaneceu imóvel.
"Eu nada possuo além da verdade, madre."
A velha religiosa esboçou um sorriso triste.
"E, justamente por isso, tornaste-te perigosa."
Um longo silêncio instalou-se.
Ao longe, os sinos de uma igreja anunciaram as completas.
Cladissa fechou os olhos.
Na solidão da prisão, compreendeu que sua batalha apenas começava. Não se tratava unicamente de sobreviver ao cárcere, mas de preservar intacta a própria consciência diante das forças que procuravam dobrá-la.
As pedras podiam aprisionar o corpo.
Contudo, nenhuma muralha construída pelos homens seria suficientemente espessa para encarcerar uma alma fiel às suas convicções.
E naquela noite, enquanto o vento percorria os vales da Úmbria, Irmã Cladissa rezou.
Não por libertação.
Mas por coragem.
CLADISSA - ROMANCE.
CAPÍTULO XI
A CATADUPA.
A notícia do que acontecera na praça espalhou-se pelas aldeias vizinhas como fogo em palha seca. Não demorou três dias para que a versão chegasse aos ouvidos de Raniero di Montefalco, e quando chegou, não veio como relato — veio como afronta.
O escriba Gualtiero apresentou-se diante do senhor feudal com o pergaminho em branco e a dignidade em frangalhos. Disse que uma camponesa o enfrentara. Disse que uma voz saíra daquela mulher que não era humana. Disse que seus próprios soldados haviam recuado.
Raniero não acreditou na voz. Acreditou na desobediência.
Enviou desta vez não três cavaleiros, mas doze homens armados, sob o comando de Enzo di Gracco, capitão de confiança, homem de mandíbula quadrada e olhos que não conheciam hesitação. Trazia consigo uma ordem selada: registrar as mulheres, prender quem resistisse, e se necessário, fazer da aldeia um exemplo.
Chegaram ao amanhecer de um sábado, quando a névoa ainda cobria os campos e o sino da igreja ainda não tocara.
Cladissa estava na casa de Teodora.
A velha adoecera na noite anterior. Uma febre súbita, acompanhada de tremores que lhe sacudiam o corpo como se mãos invisíveis a chacoalhassem. As netas choravam num canto. Marta tentava aplicar panos úmidos na testa da anciã, mas Teodora já não respondia. Seus olhos estavam abertos, vítreos, fixos num ponto que ninguém mais via.
— Ela está a morrer — sussurrou Giovanna, encostada à parede com os braços cruzados, mas desta vez sem ceticismo. Com medo.
Cladissa ajoelhou-se ao lado do leito. Tomou a mão de Teodora entre as suas. A pele da velha era fria como pedra de rio no inverno.
— Teodora... estou aqui.
Nenhuma resposta.
Foi então que ouviram os cavalos.
O som dos cascos sobre a terra batida chegou primeiro como vibração no chão, depois como trovão crescente. Beatrice correu à janela.
— São muitos. Muito mais do que da outra vez.
Marta empalideceu. As filhas de Pietro agarraram-se uma à outra. Giovanna cerrou os punhos.
Cladissa não se moveu. Permaneceu ajoelhada junto a Teodora, com os olhos fechados, como se o mundo lá fora pudesse esperar.
Mas o mundo não esperou.
A porta da casa foi aberta com um chute. A madeira velha estilhaçou-se contra a parede. Dois soldados entraram com as espadas embainhadas mas as mãos nos punhos. Atrás deles, Enzo di Gracco curvou-se para passar pela porta baixa, e quando se ergueu dentro daquela casa de camponeses, sua presença encheu o espaço como uma sombra que engole a luz.
— Qual de vós é a que fala com voz de demônio?
Ninguém respondeu.
Enzo percorreu o cômodo com o olhar. Viu as mulheres amontoadas. Viu a velha no leito. Viu Cladissa ajoelhada.
— Tu. — Apontou para ela. — Levanta-te.
Cladissa abriu os olhos. Ergueu-se devagar, sem soltar a mão de Teodora.
— Solte a velha e venha comigo.
— Esta mulher está a morrer. Não a deixarei.
Enzo deu dois passos largos e agarrou Cladissa pelo braço. Puxou-a com força suficiente para arrancá-la do chão. Ela tropeçou, bateu com o ombro na parede, mas não gritou. Endireitou-se e fitou o capitão com aqueles olhos que, segundo os aldeões, contemplavam horizontes invisíveis aos demais.
— Então és tu a bruxa que enfeitiçou os meus homens.
— Não sou bruxa. Sou Cladissa.
— Cladissa. — Ele repetiu o nome como quem mastiga algo amargo. — Pois bem, Cladissa. O senhor Raniero di Montefalco ordena que todas as mulheres solteiras desta paróquia se apresentem para registro. Tu recusaste. Impediste o trabalho do escriba. Ameaçaste os soldados com feitiçaria.
— Não ameacei ninguém. Pedi que nos lessem o documento.
O tapa veio sem aviso. A mão aberta de Enzo atingiu-lhe o rosto com força que a fez girar. Cladissa caiu de joelhos. O gosto de sangue encheu-lhe a boca. Um fio vermelho escorreu pelo canto dos lábios.
Marta gritou. Beatrice cobriu os olhos. Giovanna avançou um passo, mas o soldado mais próximo empurrou-a de volta contra a parede com o antebraço no peito.
— Alguém mais quer falar? — perguntou Enzo, olhando ao redor. — Alguém mais quer pedir que lhe leiam documentos?
O silêncio que se seguiu era o silêncio do terror. O tipo de silêncio que os poderosos conhecem bem e cultivam com esmero.
Cladissa permaneceu de joelhos. O sangue pingava do lábio partido sobre o chão de terra batida. Suas mãos estavam abertas sobre as coxas, as palmas voltadas para cima, como na posição de quem ora.
Mas não orava.
Ou talvez orasse de uma forma que nenhuma liturgia jamais descrevera.
Enzo agarrou-a pelos cabelos. O pano de linho que os cobria arrancou-se, e os cabelos escuros caíram sobre os ombros. Ele a forçou a erguer o rosto.
— Olha para mim, mulher. Olha bem. Eu não sou o escriba covarde que fugiu da tua voz de teatro. Eu sou Enzo di Gracco. Servi em três campanhas. Matei homens que valiam mais do que toda esta aldeia junta. Achas que me assustas com os teus truques?
Cladissa olhou para ele.
E algo aconteceu nos seus olhos.
Não foi a claridade gradual do encontro anterior — aquela que começara nos olhos e descera para as mãos e depois para a voz. Desta vez foi instantâneo. Como um relâmpago que não precisa de nuvem. Como uma porta que se abre de par em par quando alguém a arromba do outro lado.
A voz que saiu de Cladissa não era a voz serena do encontro com o escriba. Era a mesma autoridade, mas agora carregava algo mais. Carregava fúria sagrada. A fúria de quem vê a injustiça não como conceito, mas como ferida aberta no corpo de alguém que ama.
— Solta-a.
Enzo largou os cabelos dela. Não por obediência. Seus dedos simplesmente se abriram, como se a própria carne recusasse o contato.
— Solta todas elas.
O capitão recuou um passo. Seus olhos, que nunca haviam conhecido hesitação, agora piscavam rápido, como os de um homem que tenta enxergar através de uma luz forte demais.
— Que diabo...
— Não há diabo aqui. — A voz era firme como rocha e suave como água ao mesmo tempo, uma impossibilidade que nenhum dos presentes conseguia reconciliar. — Há apenas a verdade que vos recusais a ouvir.
Cladissa levantou-se. O sangue ainda escorria do lábio, mas ela não o limpou. Ficou de pé no centro daquela casa pobre, entre mulheres aterrorizadas e soldados armados, e a sua presença encheu o espaço de uma forma que não tinha nada a ver com tamanho físico.
— Viestes com doze homens para registrar sete mulheres. Doze espadas para sete nomes. Que proporção é essa? Que justiça exige armadura para contar almas?
Enzo tentou falar. Abriu a boca. Nenhum som saiu.
— O vosso senhor quer um censo. Pois eu vos digo o que nenhum censo registra. — Cladissa caminhou até o leito de Teodora. — Esta mulher tem setenta e três anos. Trouxe ao mundo onze filhos. Enterrou oito. Sobreviveu a três epidemias, dois invernos de fome e à morte do marido, que caiu de um telhado que consertava para que outros tivessem abrigo. Ela conhece cada erva destas colinas. Curou mais gente do que qualquer médico que o vosso senhor jamais pagou. E agora jaz aqui, a morrer, enquanto vós arrombais a porta da casa dela para perguntar se há mulheres disponíveis.
O soldado que segurava Giovanna contra a parede afastou o braço. Não porque alguém lhe ordenasse. Porque a vergonha é uma força que, quando desperta, move o corpo antes da mente.
Cladissa ajoelhou-se novamente junto a Teodora. Desta vez, colocou ambas as mãos sobre o peito da velha. Fechou os olhos.
O que aconteceu a seguir, cada pessoa presente descreveria de forma diferente pelo resto da vida.
Marta diria que viu uma luz dourada envolver as mãos de Cladissa, como se o próprio sol tivesse descido para dentro daquela casa.
Beatrice diria que sentiu um calor no peito, como se alguém a abraçasse por dentro.
Giovanna, que durante anos se recusaria a falar do assunto, admitiria apenas que o ar mudou. Que de repente não cheirava a doença e suor, mas a lavanda e terra molhada depois da chuva.
Os soldados diriam, entre si e nunca diante de Raniero, que a temperatura do cômodo subiu como se alguém tivesse acendido uma fogueira invisível.
Enzo di Gracco não diria nada. Nunca. A ninguém.
Mas todos viram a mesma coisa.
Teodora abriu os olhos.
Não os olhos vítreos e perdidos de antes. Olhos lúcidos. Olhos presentes. Olhos que reconheciam o mundo e escolhiam permanecer nele.
A velha inspirou profundamente, como quem emerge de águas escuras. A cor voltou-lhe ao rosto. Os tremores cessaram. As mãos, que estavam rígidas como garras, relaxaram-se sobre o peito.
— Cladissa... — sussurrou Teodora. — Estavas aqui.
— Sempre estive, Teodora.
A velha olhou ao redor. Viu os soldados. Viu Enzo. Viu o sangue no lábio de Cladissa. E nos seus olhos antigos acendeu-se algo que não era medo nem surpresa. Era a mesma chama tranquila que Anselmo vira naquela menina décadas antes.
— O que fizeram contigo, menina?
— Nada que não se cure, Teodora. E o que fizeram consigo?
A velha sentou-se no leito. Sozinha. Sem ajuda. As netas correram para abraçá-la, chorando. Marta caiu de joelhos e benzeu-se três vezes. Beatrice soluçava com as mãos sobre a boca.
Enzo di Gracco olhava para Cladissa como quem olha para o fogo pela primeira vez e compreende, num instante, que aquilo pode aquecer ou consumir, e que a diferença não depende do fogo, mas de quem se aproxima.
— Quem és tu? — perguntou o capitão, e pela primeira vez na vida a sua voz não carregava comando. Carregava pergunta genuína.
A voz que não era inteiramente de Cladissa respondeu pela última vez.
— Sou a resposta à oração que nunca fizeste. Sou o espelho que mostra o rosto que escondes de ti mesmo. Sou a catadupa que prometemos. E digo-te, Enzo di Gracco: cada golpe que deres numa inocente cairá sobre a tua própria casa. Cada nome que registrares como posse será cobrado na moeda que mais temes. Não a moeda do ouro. A moeda da consciência.
Enzo recuou até à porta. Os soldados já estavam do lado de fora. Alguns haviam montado nos cavalos sem esperar ordem.
Então a presença recolheu-se.
Cladissa cambaleou. Giovanna correu para segurá-la. Marta trouxe água. Beatrice limpou-lhe o sangue do rosto com o mesmo pano que minutos antes usara para a febre de Teodora.
Cladissa bebeu a água devagar. Suas mãos tremiam. O lábio doía. O ombro latejava onde batera na parede. Mas dentro do peito, naquele lugar onde a fé mora quando já não cabe em palavras, havia uma paz que não combinava com nada do que acabara de acontecer.
Enzo permaneceu na porta. Não entrou novamente. Não deu ordens. Ficou ali, com a mão no batente da porta que ele próprio arrombara, olhando para aquela mulher ensanguentada que acabara de curar uma moribunda e enfrentar doze homens armados sem erguer um único punho.
— Isto não acabou — disse o capitão, mas a voz saiu fraca, como uma ameaça que já nasce sabendo que é mentira.
— Não — respondeu Cladissa, agora com a sua própria voz, rouca e cansada e humana. — Não acabou. Mas não será como pensas.
Enzo montou no cavalo e partiu. Os doze homens seguiram-no em silêncio. Nenhum olhou para trás.
Na casa de Teodora, as mulheres permaneceram juntas até o anoitecer. Ninguém falou durante muito tempo. Teodora, sentada no leito com as netas ao colo, olhava para Cladissa com uma expressão que misturava gratidão, reverência e algo que se parecia com pena — porque a velha, que já vira o nascimento e a morte de todas as coisas, sabia que aquele dom não vinha sem preço.
Foi Giovanna quem finalmente falou. A mesma Giovanna que cruzara os braços com ceticismo na primeira reunião. A mesma que se recusara a acreditar em qualquer coisa que não pudesse tocar com as mãos.
— Cladissa... o que tu fizeste... — A voz falhou-lhe. Engoliu em seco. — Eu vi. Eu vi e não consigo explicar. E tenho medo. Não de ti. De mim. Porque se isto é verdade, então tudo o que eu acreditava sobre o mundo está errado.
Cladissa olhou para ela com olhos cansados.
— Não está errado, Giovanna. Está incompleto.
A noite caiu sobre a aldeia como um manto pesado. Cladissa caminhou sozinha até a igreja. Entrou. Ajoelhou-se diante da lamparina. O lábio ainda sangrava levemente. O ombro doía a cada respiração.
Mas não orou por si mesma.
Orou por Enzo di Gracco.
Orou pelo homem que a esbofeteara, que a agarrara pelos cabelos, que arrombara a porta de uma casa onde uma velha morria. Orou por ele porque, no instante em que a presença falara através dela, Cladissa vislumbrara algo que ninguém mais vira: dentro daquele capitão de mandíbula quadrada e olhos sem hesitação, havia um menino que chorava. Um menino que fora obrigado a matar antes de aprender a viver. Um menino que enterrara a própria bondade tão fundo que já não sabia onde a deixara.
— Senhor... não o destruas. Encontra-o.
A lamparina ardeu firme.
Do lado de fora, o vento soprava entre as casas de pedra, e nas colinas da Úmbria, sob um céu sem lua, algo se movia. Não era exército. Não era tempestade. Era mais silencioso e mais inevitável do que ambos.
Era a catadupa.
E ela apenas começara.
