Recuso
Recuso-me a ficar triste. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou – apesar de tudo oh apesar de tudo – estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras.
Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos.
Recuso-me a ficar triste. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou – apesar de tudo oh apesar de tudo – estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.
Me recuso a dar informações
Sobre o paradeiro das minhas idéias malditas
Elas se escondem bem demais
Só eu sei o caminho só eu sei
Em quem dói mais
Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és.
Recuso-me a ser um fato consumado. Por enquanto sobrenado na preguiça.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas as tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
Eu desisto. Paro de falar, e de responder, recuso comida e água. Eles podem enfiar o que quer que desejem em meu braço, mas é necessário muito mais do que isso para manter uma pessoa viva, uma vez que ela perdeu a vontade de viver.
Prefiro viver só à conviver com toda essa hipocrisia!
Me recuso estar no meio dessa gente, que usa a mentira
como meio de vida, que ostentam um sorriso forçado,
de olhar maldoso e de mente invejosa.
De que vale toda essa falsidade??
pessoas que te dão a mão, depois colocam o pé na
frente pra te ver cair...
Eu não quero ser o líder. Eu me recuso a ser o líder. Eu quero viver obscuramente e ricamente em minha feminilidade. Eu quero um homem deitado em cima de mim, sempre em cima de mim. Sua vontade, seu prazer, seu desejo, sua vida, seu trabalho, sua sexualidade a pedra de toque, o comando, meu pivô. Eu não me importo de trabalhar, segurando a minha terra intelectualmente, artisticamente, mas como uma mulher, oh, Deus, como uma mulher que eu quero ser dominada.
Eu desprezo as proporções, as medidas, o tempo do mundo comum. Recuso-me a viver no mundo comum como mulheres comuns. Para entrar relações normais, eu quero êxtase.
Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido.
Eu me recuso a me defender. Mesmo me defendendo significaria admitir culpa. Seria dizer: “Poderia ser eu, mas não foi.”
Afasto meus amigos sem saber,
E recuso novos amigos,
Tudo por conta de minha depressão,
Que não me permite levantar da cama,
Nem dar ao menos um sorriso!
Recuso-me a acatar um “ismo” que me cristalize dentro de ideologias imutáveis. Antes preservar minha capacidade de repensar minhas posições para mudá-las sempre que se fizer necessário, de modo a fugir do tendencialismo e me aproximar da realidade vigente.