Poemas de Vida Soneto
PAGÃO
A vida segue-me andando
Sem que o destino possa-me compor...
Qual sol? Qual luar? Ando
Sem saber onde encontrar o amor...
Qual chorar? Qual mágoa? Pecando
As sombras desse caminho... Nem dor
A mimh’alma desdenhando
Possa-me servir qualquer vigor...
Lágrimas encontram-me à cadência...
Qual sofrer? S’em nada pensa
A esse falsando que ninguém viu...
A essa vida, eu respondo:
Vai andando... e cantando... compondo
A encontrar quem lhe sorriu!...
O MEU ÓDIO
A minha vida é d’uma saudade imensa...
Daquele que em mim pouco sente,
Num profundo notar, de toda a gente,
Daquele que vagueia e nada pensa...
Ando a desventura do que me intensa...
Ao meu falsado, sem que a frente
Eu consiga enxergar o que há contente
Nesta altiva agonia que me extensa...
Olhando por este mundo toda desgraça,
Do sentir que eu sinto, só por graça,
É o viver deste anseio dentro de mim...
E por este sentimento, por esta vida,
Do amor é o meu ódio, é a lida,
Que de saudade eu vivo sem ter um fim...
O CAMINHO
Eu vou andando assim, sem rumo...
Procurando-me se manter na vida...
Não vejo elevação, apenas vejo descida
Neste caminho tortuoso e sem prumo...
Mas a fumaça do cigarro que fumo...
Deixa pra trás os rastros da estrada cedida,
Mostrando-me que não haverá subida
Se matar em mim a fé que não assumo!
Um caminho é traçado a cada ser vivente!
Seja árduo, simples ou que seja figurado,
Não cabe, a mim, ser um tanto coerente...
Eu só quero agora um tabaco desfilado
Para voltar pela estrada entre tanta gente,
Quem sabe vejo, o caminho a ser traçado...
RESPOSTA
Nos meus dias de tristeza, nesta esfera,
Neste globo santo de vida e de morte,
Pareço-me uma praga vinda do norte,
Qual uma folha seca que o frio dilacera...
Uma alma bendita, mas posto numa era
Em que nos dias todo sofre tão forte,
E que vive a buscar as mantas da sorte
Do Deus que te veste, e voltar te espera!
Estão longe de mim às frases benditas,
As que aos meus olhos são infinitas...
As que no meu coração só rogam amor!
As minhas noites são frias, são mortas...
Será que a mim Deus fechou as portas?
“Espero-te, meu filho”, respondeu o Senhor.
MURMÚRIO
Ao fim da minha vida, quem sabe
Quando frio estiver e profundo...
Sob a terra bendita deste mundo
Todo o calor do meu corpo acabe!
Vivem a vaguear as almas, em segredo
Sussurram-me as frases belas e frias
No ar gélido das tuas vozes, nos dias
Em que o meu sentimento é o medo!
Vagando ao igual penar nas tuas eras,
Sinto-me um ser dormente à espera
Das noites santificadas em um além...
Quem sabe quando chegar o meu fim,
Quando as rosas caírem sobre mim,
Aos ouvidos eu possa esquentar alguém!
ÚLTIMO PRANTO
Acaso torto! Hás d’eu, portanto, cumprir
Por esta vida de prantos e de amor:
Existência qual foi traçado o meu porvir,
E glória, qual me foi vista ao esplendor...
O firmamento, que me figura em exaurir
A maldição, o engano sedutor
Que me avaria, em promessas, induzir
A alma em displicência ao meu fulgor...
O qual me invoca em ilusão ao pecado,
Que sem razão, me complexa ao mundo,
Que sem esperança me intui elevado...
E consumado eu me vejo ao sol disposto,
A vencer todo chão de ardor profundo,
Que de triunfos, eu me vejo sorrir o rosto...
ORIGEM-SANTA
Sol altivo e quente. Bondade invulgar,
Imensidão de promessas, vida-além:
O anjo da luz, no primeiro luminar,
Em que habita ao mundo... — O harém!
Esperança e conforto. O amor e o luar:
Idólatras que dispersam o mal, o vivem
Aos jardins de sorriso, o despertar
Dos sepulcros dos sonhos... Amém!
...Que desejos fossem de astro-claridade,
Do mar azul a pureza e a verdade,
Ao sol o dispersar da ilusão e do medo!
Sangue e paixão: amplitude e afeto,
Que ensinaste ao coração o homem-reto;
O fulgor da eternidade... — O segredo!
INSANIDADE
Por que de vida estranha pôde o amor?
Que sentimento corrompe e engana
Em gume desejado, sem que o fosse dor
Numa vida ardente e de alma insana?
Por que de vida alheia a paixão profana?
Quais eloquentes vozes de condor
Ao brado de anseios duma alma humana
Pôde o coração sem que a fosse ardor?
Antes inspirados em desejos poucos
Os meus lábios ávidos e inconsequentes,
Que fosse a sofrer eu em sonhos loucos...
Móvel no qual me ponho a dormir
Sentindo os castigos das cobiças quentes,
E que nada de insano fosse a eu devir!
Lembranças de amizades curiosas
É neste humilde verso que as resgato;
É como a fonte que dá vida às rosas
Adormecidas pelo tempo ingrato.
Situações inocentes, carinhosas,
Da nossa infância no momento exato.
Imagens da lagoa, bichos, prosas...
Na memória, belíssimo retrato.
Relembro cada lance motivado
Pela saudade, no contexto puro
Da emoção e constante aprendizado.
Dez anos passam em segundos, juro.
Nossas cartas escritas no passado,
Nossas vidas, distantes no futuro.
ANJO DA MINHA VIDA
Vai, me diz o que faço ou deixo de fazer...
Sem saída já estou, tão preso ao teu amor,
Não consigo mais caminhar, só sentir dor
No meu coração, que a si se quer perecer...
Minha vida não terá mais extensão sem ter
A paixão que tanto desejo, pra poder amar...
O teu corpo quente, tuas carícias, teu olhar,
Os teus beijos ardentes, de profundo prazer!
Sem ti não serei mais nada, está em mim
Todo o seu sentimento, tão forte assim,
O fogo, o vigor, a loucura, sem calma...
Que me faz doer, todo o ser, oh, dor sem fim!
Meu anjo, minha donzela, meu querubim,
A ti pertence o meu amor e a minha alma!
VENTOS DO MEDO
Ventos que soprava a vida desinibida
ainda hoje, sopra os quatros cantos
mas, a bandeira perdeu o seu encanto
e a brisa agora, congela o luar da vida.
Não se ouve mais gritos, de clamor...
Medo, perambula no estampado fado
a espera, e a flecha certa do horror...
Pendulam tremula, abafando a dor.
Estão fazendo bombas para brincar
por certo, será apenas para brincar
mas p'ra que tantas, para brincar?!
Estão carregando, dinheiro p'ro altar
na alegação de que o céu irá precisar
é uma pena, que Deus não irá gastar.
Antonio Montes
POR UM BEIJO
Dizer-te? O que me caberia dizer
O que tanto sinto no meu peito
Se me és da vida, o amor eleito
Sem que sintas n’alma o meu querer?
Dizer-te, sempre me foi de enlouquecer
Nesse caminho sem que perfeito
Tenhas pulsado, e nada feito
A esse coração, que é por ti, viver...
Dizer-te, sempre me foi tanta virtude,
Tanta paixão, tantos desejos
Por teu amor louco em plenitude!
Dizer-te, amor, que será um tanto
Quando me der à boca os teus beijos
E fazer de mim um só espanto!...
A MINHA BÊNÇÃO
Vida nua... mariposa das noites, fria
Qual um rio corrente, sem nada,
Sem destino e desvairada,
De caminho torto... de ardentia...
Vagueando curvas de pecados, fugidia
Em preces dolentes, maculada
Rompendo o sol, e desgraçada
Como as rochas vagas... de agonia...
Silêncio de bênçãos... branca alma
Arrastando saudades... sem talma
Poisando os pés descalço em dor...
Vida além... Ah, pobre vida além...
A vaguear no mundo... sem ninguém...
No mendigar dum só pouco amor.
SENSAÇÕES-VIAGENS
Há sensações que são barcos
enquanto velejamos
no oceano interior da vida.
Há sentimentos que são portos
num gosto adiado de chegar:
um sabor de lonjuras,
cristalizadas em azuis,
lembrando o verde das vagas
de um nômade fluir,
distantes, azulizantes...
Sensações barcos,
sentimentos portos —
enfunados de um vento azul,
indo e vindo,
daqui, dali,
azul azul azul...
Sinestesias de um viajar interno,
vestido de amplidão e pensamento
no vasto sabor anil e sal,
entre o glauco arfar das ondas
e vôos lonjuras de gaivotas...
Sonetinho bestinha...
A vida às vezes tende a inverter
ou nós que vamos sempre complicar?
Na hora em que me esforço à adormecer
não sinto esse meu sono ao acordar...
Não tenho tanta gana pra vencer
quem tem o desespero de ganhar
sem nem saber depois o que fazer,
qual cão que alcança o carro e vai ladrar...
Dormir é bom, faz bem, nos dá saúde,
mas dizem que quem dorme muito gasta
a vida e a perda ao ganho, assaz, contrasta.
Vencer é só questão da atitude?
Sei lá! Frase de efeito em muito ilude.
Viver, pensar, comer, dormir me basta...
MORTE
Morte! A porta certa e a mais bela
Entre a vida e a escuridão...
Luxúria maldita e luz que vela...
Que aos mortais, clareia em vão!
Sombria, e gentil, e rastejante...
Que me acerca... que por graça,
Inflama minh’alma e passa
A flamejar um amor prestante...
Um vestígio certo do que sou
Petrificado ao teu segredo
Nas noites frias sem luar e sem cor...
Que por te encontrar, sem nada
Seguindo tua luz, sem medo,
Eis em mim a tua dolente morada..
Tu És Um Homem...
Tu és um homem, não um pobre rato —
tu vieste do sonho para a vida,
da vida com o dom de renascida,
da vida que é um poema e não relato.
Tu és um homem, não um coelho ou pato —
tu vieste da Mão que te convida
ao retorno genial da mais subida
estirpe do nascido: além do fato.
Tu és um homem, esse vasto sonho —
o sopro constelado (sonho inconho)
na argila pelo próprio Criador.
Tu és um homem, cujo dom descansa
na luz eterna de perene amor —
brilhas mais que a mais plácida esperança.
LA
A união
Nos percalços que a vida tropeça
Queria eu recolher os obstáculos
Juntar somente os bons cálculos
Fazer matemática à boa sentença!
Contudo, minha ingênua vontade,
Não podereis pintar tudo de flores
Choraria eu os momentos de dores
Mas, posto ao centro pilastra forte,
Intercedestes, sobre mim o Pai eterno
Ensinando-me ver em tudo a gratidão
Pois, á vida pousa o verbo do destino!
Abraço, então, a vida, como uma lição
Porque não nos cabe viver em desatino
Deveis viver na paz, no amor e na união!
Rorejo
Ao nuance mais belo da vida,
Há sempre lindo amanhecer!
Pétalas, folhas no rorejo flora
No espetáculo do bem viver!
Porque somos parte de tudo
Entre porções da existência;
Também um pouco do nada,
Entre razões do ego absurdo!
Preencha-se e continuemos,
Vamos juntos, seguir o rumo
Neste universo onde vivemos!
Que seja tudo o bom proveito
Para a vida de bem e aprumo,
Não para o mal e o desgosto!
O quebra - cabeça
Certa vez veio - me a seguinte ideia:
- Nossa vida é um quebra-cabeça!
Quem não sabe jogar, fica na platéia,
Fica a ver, que o outro o jogo vença!
No jogo vence quem sabe encaixar
Cada peça no seu devido lugar!
Na vida vence quem sabe lutar,
Ama a própria vida sem se queixar!
Se o objetivo é sempre uma meta,
O sonho consiste em se realizar
E o quebra-cabeça é a descoberta!
Á quem a própria vida sabe decifrar,
Criar estratégia na própria conduta,
De repente, aprende sozinho a jogar!