ferrugem; mãos manchadas de cobre e... Vinicius Rodrigues
ferrugem;
mãos manchadas
de cobre
e pó.
gosto metálico
no céu da boca
metais nobres
que corroem
a bile.
engulo ferro,
mastigo pregos.
água alcalina
que insisto
em beber.
antes mel,
mas só sobra
ácido
no estômago
para digerir
os metais
que tinem
ao cair
no meu
umbral
interno.
que o tempo
e o vento
descasque
as crostas
de óxido
marrom—
vermelho
de minha
carcaça,
deixando apenas
ossos
e poeira
e restos.
sem peso,
sem culpa,
sem
nome.
gasto dentes
de ranger
à noite,
gravados
como lapidação
em rocha
dura.
sorrio
enquanto as palavras
oxidam
no céu
da boca,
solução férrica
desgasta a mandíbula,
tornando o terno
suave
em gosto metálico
que vira
silêncio em
minha
língua.
o sol reflete
em sangue seco,
_ouro falso,_
peça de teatro
em fábrica
abandonada.
atribuí papéis
que não me cabiam:
palhaços de cobre
dançam
nas máquinas,
sorrindo em
baritas,
mãos erguidas
em aplausos
mudos,
zombam de mim
com risadas que
nunca se
desgastam
como
aço
velho
aço corta.
aço
zuni.
lingotes
vermelhos
derretem
seringas
de vidro,
escaldando
palmas,
como da
última
vez
que tentei
segurar
aquilo que
nunca
pertenceu
a
mim.
_foligem verde_
assola
lares,
flores,
bares,
bocas,
peitos,
sombras
e o que
por ela
passa
encontra
desgosto
fosco,
que nunca
saberá como
é viver
cromado
no prata,
no preto,
na sombra,
na luz.
tudo vira
lama,
barro,
vira ferrugem,
vira
nada.
apático silêncio
engulo
pois
é mais
doce
que a culpa
escarlate
que corrói
meu sangue
e o deixa
laranja.
sorrio dentro,
sem fingir
pra mim,
enquanto o rancor
me crava
como um prego
na carne
queimada.
asas cortadas
por serra cega,
rasgando
as costas,
me soldando
ao chão,
preso em ciclos,
até eu juntar
as pratas
penas,
lâminas
retorcidas
e parafusá-las
nos ossos
que não me deixam
voar.
ódio ferve
nas veias,
evapora
ácido
nos poros,
nos deixando
um cheiro
de solda,
enxofre,
na derme,
parafusos soltos
transpirando
raiva.
cuspo porcas,
bebo lava,
mastigo
rebite,
prendo
pregos
e tudo
recomeça,
_zinabre doce._
até não sobrar
nada.
e,
quando o último
metal
se desfizer,
quando a última
lâmina
se esvair,
restará apenas
o eco
de um tilintar
distante—
do som
de mim,
ferrugem
eterna.