Cristo, na cruz, clamou ao céu:... Gabriel Hayashida de Arruda

Cristo, na cruz, clamou ao céu:
"Pai, por que me abandonaste?" —
e até o próprio Deus silenciou diante da dor de Seu Filho.
Se Cristo, puro e imaculado,
sentiu o peso da ausência do Pai,
que restaria a mim, infeliz, senão a vergonha
de ainda continuar a existir, quando a morte já me seria mais justa?
E se aquele madeiro bendito,
que a tudo redime, me parece tão distante,
é porque meu sangue clama mais pelo barro
do que pelo céu.
Por isso, não ergo minha voz aos céus,
pois não sou digno de que me ouçam.
Não clamo a Ti, ó Deus Misericordioso,
porque o Céu não é para quem duvida,
e eu, que não sei sequer se existo,
como ousaria esperar que Deus me ouvisse?
Anjo do Senhor, se me escutas,
ensina-me ao menos a chorar pelas minhas faltas.
O homem, em sua cegueira, ergue o olhar ao céu:
"Morte, por que me abandonaste?" —
Cristo chamou pelo Pai porque, mesmo na angústia, sabia-se Seu.
Mas eu, fraco e tolo, chamo por ti, ó Morte,
porque já nem sei a quem pertenço.