Fado
INCONTENTADO (soneto)
Saudade sem dor, amor sem fantasia,
Que aperta o suspiro dentro do peito,
Que no sim perpetuado, assim queria,
Que nada mais se sente tão satisfeito.
Emoção, que o doce sossego repudia,
Na palavra rude dita sem o respeito,
E, tirando dos sorrisos toda a alegria,
Fica ferido, e sem qualquer proveito.
Que viva sempre a sede e a tua fome,
Paixão sem queixa, e sem lamento,
E que ebule o amor em suas rimas.
Sempre tenha, o nome que consome,
Que eu tenha sempre, contentamento,
No incontentado amar e suas pinimas.
© Luciano Spagnol
poeta do cerrado
2018, setembro
Cerrado goiano
Olavobilaquiando
ONÇA
Forjo no sol o meu sangue...
Tal qual onça bravia...
Que ao acordar em mais um dia...
Fazendo-se de morta...
Aguarda o coveiro...
Em uma cova...
Em meu castelo...
Desse chão...
Ando pelas pedras encantadas...
Meu caminho...
Um sonho perigoso...
Que trilho sozinho...
Minha jornada...
Em noites perigosas...
Quando a lua se faz vermelha...
Nessa magia ardente...
Consumo o que vejo pela frente...
Presinto o que há por vir...
Será que mais alguém vê e escuta?
Será que somente eu...
Na vida, essa peça...
É o meu papel?
Ventania me agita...
E em meus olhos...
Um duvidoso brilho reluz...
Dias e noites me envolvem...
Continuando minha ronda...
Vendo um mundo oco...
Pensamentos de quase um louco...
Sem lei, sem rei, sem repouso...
Me acho...
Andam vultos pelas estradas...
E pelas calçadas com vultos...
Eu ando...
A teia do destino...
Não há quem corte ou desate...
Viver ou morrer...
No meio...
Um impasse...
Se um anjo tocar a corneta...
Me chamando ao encontro divino...
Levarei comigo..
Todas as glórias que hoje sinto...
Enquanto em mim o fogo clamar...
Sempre terei abertas minhas asas...
Jamais deixarei...
De como menino sonhar...
Jamais deixarei...
De como livre poder voar...
Meu chão, minha cor do amanhã...
Meus desejos, dores e coragem...
Pelejando diariamente...
Para minha vida ...
Não ser só uma miragem...
Dizem que tudo passa...
E o tempo cruel esfarela...
Enquanto Deus assim querer...
Minha luz ...
Não será quimera...
Hei de pulsar o amor...
Até mesmo na escuridão...
Amar para mim não é um devaneio...
Não é ilusão...
Não me veja como um falso profeta...
A sondar o inimaginável...
Sou como qualquer pessoa...
Vivendo meu fado...
Busco a estrela que me chama...
A luz que acende o sol...
O vôo do beija-flor...
Na vida...
Um pouco de amor...
Por tudo isso...
Meu espírito nunca há de envelhecer...
Sou contra a morte...
Nunca hei de morrer...
Sandro Paschoal Nogueira
Diáfano Impreciso
Entre o meu ente e o teu ente,
Há uma colisão, um encontro de um só ser.
Acordo de duas almas qualitativamente
Que se encontram por prazer.
Do lado de um fado, há um lado!
Do fado ao lado, outro fado!
Do lado da fronteira, há uma asneira!
Ao lado da asneira, outra fronteira!
Uma reza,
Rotina
E rotineira!
Entre os entes há as mentes.
Há o sentido figurado,
Onde o meu coração,
Foi começado,
E o teu... foi destroçado!
A ambígua maneira de dizer,
Em suma o que acontece:
É que o teu ente quis viver;
O meu ente, ao que lhes parece,
Fez da curva, reta, não quis ser!
Um ente foi para o que veio!
Outro ente veio para o que foi... ser meio!
Ao lado do que padece, há um que se estabelece!
Do lado do um que se estabelece, o outro, de si... se esquece!
É uma escuridão.
Diáfano turvo,
Que enlouquece!
Entre o teu ente e o meu ente,
O que não colide passa ao lado.
Passa sem comum e repete concomitantemente
Que o prazer não foi encontrado!
Dois lados esburacados,
No meio da fronteira.
Dois soldados,
No meio, uma trincheira,
Onde as munições são fados!
O prazer... é a asneira,
E o ente,
Dois corações despedaçados!
O círculo é laranja.
O traço é eufemismo.
O polígono é o que se arranja,
E o dormir,
É o que da vida...
Se esbanja!
#Corpo #cansado...
Nem bebida inspira...
Sono pesado...
Quem diria...
Enfim aqui estás...
Você...
E tantos outros mais...
Por onde olho...
Promessas se fazem...
De travesseiros soltos...
Lençóis amarrotados...
Corpus suados...
Ensaidecidos...
Mas o sono tão pesado...
Ciumento clama ...
Pisca os olhos...
Quer ficar acordado...
Sapato incomoda...
Essa roupa chata...
Quero ficar pelado...
Debaixo das cobertas...
Sozinho....
Mais uma noite estarei de fato...
Culpa não é minha...
Vontade eu tinha...
Porém Morfeu venceu...
Caminho de casa...
Bebida jogada na rua...
Não dá mais..
Nem segurar um copo consigo...
Será sono ?
Talvez quebranto...
Não me espanto...
Um pai nosso...
Quem sabe...
Desfaz o feitiço...
De olhos ruins...
Más vontades...
Gente sem juízo...
De vocês não preciso...
Nem quero contato...
Antes só...
Que mal acompanhando....
Sandro Paschoal Nogueira
— em Conservatória, Rio De Janeiro, Brazil.
"Um povo é masoquista ou louco quando ....
Beija a mão que lhe bate...e agradece ao ladrão que o rouba todos os dias!
Porque isto é triste, porque isto existe ... e tudo isto é fado!"
Borboleta iludida
Os teus olhos escondem diamantes
Nas retinas com olhares mortais
Que arremessam flechas ofuscantes
Como se fossem notas musicais!
A lua cheia, num mar de euforia
E eufórica rotação constante
Faz uma escura noite ser dia
E o amoriscado, coisa ofegante.
O coração, de cego, então insiste
No timbre perfeito, que não existe,
Como se o amor lhe desse a mão.
Mas tal como a borboleta iludida,
Que tão curto é seu ciclo de vida
Como o fado duma breve paixão!
Eras tu, simbiose?
Não era a alma minha só sem esse enclave?
Cada verso o inverso de vida... E tu?
Existindo, assim, em mim...
Tremam panelas!
Pois esse vento me arrancou a parte que criava
e, na aljava, flecha não restou...
Pós amor? Raiva, ora pois!
Se não mais pertenço é tenso o espaço!
Mas vai e decai aos pequenos pedaços de frases tecidas só para ''mitar", "lacrar" num mero tempo fátuo, findo em átimo modo...
Mas veja!
Ditirambamente eu me rendo bem rente ao enfado...
E o fado? Na "zona" é que toca o Mané...
E nóix? Gosta!
**São pedras que batem, frias e dormentes.**
são ocas, as memorias.
Aqueles que fogem e fingem ser dementes.
Na maré vazia, oiço Lisboa, a minha.
olho para longe para não ver nada.
As pedras ainda lá estão.
As gaivotas falam, como os meus sonhos voam.
Estou dormente no olhar, mas vivo nas memórias,
mas continuo sentado,
na espera que o vento do mar me traga a boa nova,
que os raios de sol se fundam com o laranja do Cacilheiro,
E que as pedras fiquem, mas que se tornem quentes.
Lisboa.
Lisboa dos amores, de timidez bela e única,
cúmplice da saudade,
neste som de um tejo vivo e de gaivotas falantes.
Lisboa, Lisboa
De segredos tamanhos, de apitos, manjericos, homens e mulheres.
Lisboa.
Lisboa do Fado.
Das ruelas, dos becos, das colinas.
Lisboa quente, sedutora e faladora.
frenética.
Lisboa dos Dead Combo e dos putos a roubar maças.
Lisboa.
Também minha.
#POR #TAL
E das paredes nascem as poesias...
Nascem durante os dias...
Nascem em noites frias...
Também nascem junto à taça que brilha...
E também diria...
Nascem na vida que escoa...
Na morte que se avizinha...
No beijo roubado...
Naquele que não foi dado...
No olhar que brilha...
Da amada...
Do amado...
Nascem em espíritos calados...
Corações magoados...
No caminhar calmo...
Ou nos passos apertados...
Surge nos sussurros do vento...
Quando fala o silêncio...
Nascem em jardins floridos...
Mas também nascem nos desolados...
A poesia nasce e se cria...
Renova-se, é um fato...
Quando menos se espera...
Surge o inesperado...
Nasce nas venturas...
Nasce nas amarguras...
Cresce e brota vestindo-se em fantasias...
Esconde ou mostra nossas tristezas...
Realça nossas alegrias...
É deveras um fado...
Quando brincando põe-se a sonhar...
É sonhando que podemos voar...
Ser poeta , sem merecer...
Apenas escrever...
E sendo muito grato por tal...
Ao Criador ...
Sempre agradecer...
Sandro Paschoal Nogueira
facebook.com/conservatoria.poemas
Caleidoscópio
Versificação, fragmentos de estados sentidos
Girados, diversos, coloridos em semelhanças
Fantasiados, aglutinados, os sonhos defluídos
Refletindo as lembranças em breves danças
Inspiração, agregados repletos de infinidades
Olhares, gestos, sentenças e teus tormentos
Rimando as cicatrizes, desenhando saudades
Em um fado, espelhado de eleitos momentos
As quimeras se entrelaçam em pensamentos
Tal como a um traçado e, delineado de ilusão
Emoção estampada d’alma, sobejos adventos
Arte do destino, uma prosa matizada, vibrante
Que poeta o singular, e peripécias do coração
Tal um caleidoscópio, que dá talho ao instante.
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
2023, 18, novembro, 19’00” – Araguari, MG
ERRO NOS SENTIDOS
Enfim, posso suspirar! Eu já chorei
Os versos chorados de quem sente
Com poética amargurada, presente
No sentimento do amor que tentei
Se tudo foi só ilusão. Eu já nem sei
Se foi minha, ou da sina. A cadente
Emoção, que doravante é ausente
E, que dói no coração. Não ansiei!
É assim, meu aperto, eu, que vivera
No engano da possibilidade perdida.
Do afeto, o erro nos sentidos impera
Então, minha sensação, vive ferida
Que, pra não amargar, antes valera
Estar no querer por toda uma vida!
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
05 maio, 2024, 17’25” – Araguari, MG
SEMELHANTE
O cerrado, místico, denso e feiticeiro
Sinuoso, diversidade um repleto veio
Espinhento, áspero, e singular cheiro
De magia vai deixando o poetar cheio
Se a secura envolve o agreste roteiro
Embora seja, a chuva também é meio
Pancadas, carregadas, vento violeiro
Que canta nos buritis, vergado esteio:
Então, ora acinzentado, ora matizado
Teimoso e fagueiro, pincela o cerrado
Tudo converte, a quantidade aprouver
É semelhante ao cerrado o meu fado
Ora descorado, ora tinto, vou variado
E neste tom, irei onde mansidão tiver!
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
15 abril, 2024, 12’20” – Araguari, MG
EU (soneto)
Existem vários eus no meu eu
E de tão perdido, anda sozinho
No sonho joga sorte, coitadinho
E assim, sem ter norte, é plebeu
Se sou mal interpretado, fulaninho
É do fado este fardo triste e forte
Tal ímã do azar que rêdea a morte
Bulha quem sou na fé e no caminho
E que destino este agre e de recorte
Da alma esfarrapada e sem colarinho
Que chora os porquês, sem ter porte
Porém, sou o que sou, além do mocinho
Alguém de coração que com amor importe
E que nesta tal vida, andeja de mansinho
Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
Março de 2017
05'55", cerrado goiano
INVENTÁRIO (soneto)
Dos detalhes os anos tomaram conta
Já se foram muitos, algumas cicatrizes
Pois, lembranças, são meras meretrizes
Dum ontem, no agora não se faz afronta
O meu olhar no horizonte é sem raizes
Pouco lembro onde está a sua ponta
Tampouco se existe algo que remonta
O remoto perdido, pois sou sem crises
Gastei cada suspiro pelo vário caminho
Brindei coisas, na taça deleitoso vinho
Na emoção, chorei e ri, a tudo assistia
Em cada tropeção, espinho e carinho
Ali aconcheguei o meu lado sozinho
Não amontoei nada, nas mãos, poesia
© Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
Abril de 2017
Cerrado goiano
TUDO É FOI (soneto)
Num piscar de olhos, tudo é foi
Outros aléns são rapidamente
O tempo feroz é que nos corrói
E gera o amanhecer diferente
Então que o erro nos perdoe
Que a sorte seja contundente
Os olhares, olhares nos doe
Momento, muitos e ardente
Presenças, maior que a falta
Onde amor seja lhana pauta
E nos incendei da tal paixão
Nada nem sempre é à ribalta
Apressado por nós sem falta
A vida, em sua combustão...
© Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
2017, 27 de maio
Cerrado goiano
GRILHÃO
Por que hei, desta solidão, o memorial
Por que hei, do silêncio, o chamamento
Se o caminho tem o seu início e o final
E o fado nunca é só descontentamento
Fosse possível ser apenas um ato fatal
Depois de tanto e tanto aborrecimento
A vida seria apenas passagem acidental
E no acaso não teríamos o sentimento...
Vária lembrança no tempo, nunca lento
De vias que nos parecia uma eternidade
E que nos foi reservado no esquecimento
Por que? Me encadeias sem piedade
No grilhão do vil ignoto e do tormento
No cárcere dum martírio da saudade?
© Luciano Spagnol
poeta do cerrado
25 de setembro, 2018
Cerrado goiano
Olavobilaquiando
Com licença poética
Quando nasci um anjo barroco,
desses rechonchudos, disse:
- ide e seja devaneador e louco
trovador, saia da mesmice.
Aceito está sorte, tampouco,
serei neste fado só sandice,
terei, também, a imaginação.
Não sou tão eu de maluquice
que venha sem a razão.
Acho o cerrado uma beleza
ora sim, ora não, darei adeus ao sertão.
Mas o que sinto, e que seja pureza
ponho a inundar o meu coração.
Dor tenho não. Só leveza!
Se choro ou lamento é de emoção.
Cumpro a sina!
Já a inspiração a levo aonde vou.
Se é maldição, eu, ave de rapina.
Poeta é fingidor. Eu sou.
© Luciano Spagnol
poeta do cerrado
Setembro, 29, 2018
Cerrado goiano
Paráfrase.
Xis
Não me perdi numa ilusão. Perdi-me
Na incoerência, entre os devaneios
E no poço sem razão encontrei-os
Débeis, onde a cortesia os oprime
E num inconsequente e fatal crime
Duma imaginação, tive sonhos feios
Onde a inspiração de olhares cheios
Da mesmice, deixou de ser sublime
Mas há tempo no bem, compreenda
Não só os que se tem, - os fugitivos
Os da fé do amor que não nos infama
São tais como o andejar de uma lenda
A alma terá sempre os homens vivos
No afeto, ardentes como uma chama
© Luciano Spagnol
poeta do cerrado
Outubro de 2018, 14
Cerrado goiano
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