Engolir
E o som de todos os nãos, os ouvido e os engolidos, ressoa como granizo no telhado de onde vivo e não me deixa dormir
“Louco”
Abri trilhos de um colchão duro e adormecido
O céu me consumia e engolia cada cacho de tecido
Meus pés corredores atingiam a sombra dos meus ouvidos
Esperava repor os meus sonhos coloridos
A cada pintura de casas e trigos
A cada escrita de um verso enlouquecido.
Por que a surpresa se nós somente somos animais com instintos detidos e, também somente, engolimos com a certeza de que está morto?
Nunca destile um veneno que não conheças completamente o antídoto. Poderás engoli-lo sem aperceber-se.
Uma hora cansa, cansa de ser forte o tempo inteiro. Cansa mostrar um sorriso quando você está engolindo o choro.
Não debochou, não choramingou, não demonstrou fraqueza, não embirrou, não queixou-se. Apenas engoliu o choro, prendeu as lágrimas e se foi. A partir daquele momento ela jamais foi a mesma.
Mandarei uma mensagem de despedida com algumas letras engolidas pelo orgulho de prender o choro, mas torço que entendas o motivo de eu ir embora. A tua falta de carinho deixou o meu corpo ao relento, não me davas o calor devido e, nem venhas exclamar que isso não passa de mais uma frescura minha, pois não há ser vivo que sobreviva sem um dengo; logo eu que sempre dependi de ti e do dengo preso que tu soltavas uma vez ou outra, meio sem amor nenhum, mas é seu jeito e eu não estou me importando com ele. Mas é que não dá mais para dormi no frio todas as noites, vou embora procurar um cobertor, mesmo que ele nunca tenha um calor comparável ao seu. Talvez um dia entendas a carência de um corpo quando dentro dele bate um coração que ama.
Já engoli muito ódio, muita angustia. E eu tenho certeza, certeza absoluta, que um dia os vomito na cara de quem merece.
Todas as palavras que você me disse, eu engoli.
E até hoje estou engasgada com elas, mas espero um beijo seu para essas palavras virarem vapor.
Memória Afogada
O passado engoliu quase tudo
Não posso nem falar, nem lembrar, nem temer
O passado me roubou a alegria
Não deixou fotos,
Nem histórias ainda por contar
Podia ter roubado minhas lágrimas
e não deixá-las secarem ao sol
e não deixá-las molharem minha alma
Podia ter sido mais condolente
e devolver o que eu perdi
e trazer o que eu amei
Mas deixou apenas a certeza
de que nem tudo se repete
e que a pedra jogada não volta
O passado engoliu quase tudo
Insensível, deixou as lembranças