Depoimentos para Colegas de Sala de Aula
Quando o tempo não tinha mais tempo, quando a esperança já estava sepultada, quando minha mente estava há muito deteriorada, quando eu não mais precisava, vocês roubaram palavras da parte de suas línguas que se salvava, a parte em que nunca antes haviam tocado, roubaram palavras e as despejaram frente aos meus olhos, esperando que me ajoelhasse em sinal de gratidão. Mas vocês nunca estiveram lá por mim, nunca quiseram me ouvir dizer que pra mim bastava.
Era quando meu corpo entrava em colapso e meus olhos se afogavam, quando meus pulmões se tornavam pequenos demais, quando meu coração ultrapassava a velocidade de um guepardo, era nestas catástrofes internas que eu ainda podia ver a luz. Mas a vocês só interessava o riso advindo do choro, a piada pontual a não ser perdida; comentários em série encontraram ali sua chance de glória, e bastou, em desespero, expor minha carne ao mundo que o coro ao redor se colocou a gargalhar e reduzir à própria miséria a garota da pele rachada.
Lembranças se esparramaram em minhas veias e minha mente foi transportada aos sofridos dias de um ano passado e com toda a proteção armada, com todo o peito fechado eu digo, digo que doeu.
Nada se fez, nada se faz. A saúde de um aluno só interessa aos bolsos cheios ao final do mês. De nada adiantou tentar se importar com toda aquela história de hospital, a ligação só chegou quando eu já saia de lá.
É apenas o mundo cão a mostrar que até para sofrer é imprescindível chorar. Suas palavras quando ditas não valiam nada; naquele momento eu já não mais precisava escutá-las, pois elas somente eram necessárias quando suas salivas eram desperdiçadas dizendo que era Gillete quem me patrocinava.
Quando eu era mais nova, o menino que eu gostava disse que me achava bonita de vermelho.
Me observo, hoje, no espelho, usando tons de vinho, bordô, carmesim, e amaranto.
Me esquecendo que gostava de azul.
Tenho medo ao pensar nas outras partes de mim que existem como um meio de ser amada. Temo que me perdi ao exigi ser amada antes de exigir ser eu. Me apaguei ao buscar algo intangível como o amor.
Faço macarrão do jeito que meu irmão me ensinou, escuto as músicas que minha mãe me cantava, vejo filmes para ter sobre o que conversar, e leio os livros favoritos de todos que conheço.
Me sinto como um quebra-cabeça indecifrável montado por peças de outras pessoas.
Sem essência, sem formato, sem imagem.
Uma grande bagunça.
Escrever sobre bullying é a minha forra, por todos os insultos e ofensas sofridos no decorrrer da minha infância e adolescência. É como se cada frase funcionasse como uma bomba. E poder detoná-lo me dá um prazer innndeeescritíííveeel!