Cheiro Lembranca
Um aroma úmido,
um pequeno nada,
exala o singular cheiro de terra molhada.
Composto de chão de terra, britas e
fragmentos do cotidiano.
O perfume da chuva
tem aroma de óleo de sândalo,
restaura lembranças
ao passo que apaga os rabiscos do chão.
Perfuma o vento
no entardecer das cores,
limpa a lousa da calçada e da vida,
hidrata nossa esperança
e restaura nossos sonhos.
Bibliosmia
O cheiro… ah, o cheiro de você.
Não é só cheiro. É o resto do mundo.
O cheiro da descoberta, o odor almiscado do que se ignora,
do que ainda falta.
É cheiro de livro novo.
Você é o odor do não dito.
Entre os dedos, suas páginas se abrem.
A palavra toma corpo, o verbo se faz carne.
Eu quero conjugar o que está entre as palavras,
capa, bordas. Ir até as margens da linguagem, onomatopeias.
Seu gênero é esse, eu sei: fantasia e suspense. Experiência sensorial.
Respira, você. E eu também respiro, exalo.
É o amor que se disfarça de saber,
ou saber que se dissolve em desejo?
A capa é corpo fechado. O que não se diz.
Aberta, toque. Você é o que não se lê.
Honra tem cheiro, e não há como esconder sua fragrância. Assim como o mau cheiro da desonra.
Ninguém que aprendeu a honrar fica escondido, assim como o que desonra jamais passará desapercebido.
Muitos poetas exaltaram
a beleza da natureza,
em toda a sua plenitude
e exuberância,
mas isso pode estar contido
na suavidade do movimento
de uma simples borboleta,
na luz que irradia
dos teus olhos,
no timbre da tua voz
ou apenas no teu cheiro.
Que bom que você existe e com você todos os teus sonhos, planos, ideias, vontades e desejos.
Que bom que você existe e com você a tua voz, o teu calor e o teu cheiro.
Humm, o cheiro de cereja no gosto dos teus lábios. Um cheiro de mel como a carne deve ter. O vermelho do morango, um cheiro no ponto da mordida. O cheiro da comida gostosa de ver.
Meu físico, cheiros, cores, calor, texturas de coisas, gostos e afins que se fixam na memória ou trazem-na por lembranças, alcançadas por processo físico também, alterando o estado do meu ser nestes prazeres dos sentidos. Sentimentos e emoções lidos ou escritos na memória e entendidos como o não físico, mas ainda que não tocados pelas minhas mãos, da criação à sua consumação, pura natureza física do meu ser, mesmo que apenas memórias, sentimentos e emoções.
Cheira o Cerrado
O cerrado é desengonçado, e cheira bem
Ipês, pequis, caliandra bom cheiro tem
Na madrugada cheira o manacá
Na queimada cheira fumaça, e o jatobá
Cheiro bom, tem! Secura e chuvarada
Cheira também. Aqui a saracura tem morada
E o lobo guará, cheiro forte da mata vem
É cheiro do cerrado, autocrata, cheira bem
Quaresmeiras matizam o chão cascalhado
E perfumam também, é encantado, alado:
- O sol no horizonte um cheiro provém
É o cerrado, cheira bem!
Cheiro de vida tem!
Saudade, infância, ao seu lado
Inspiração detém, cheira o cerrado
Um prezar refém, faz ir além
Sentir o cheiro que ele tem...
Cada canto tem cheiro e magia
O cerrado exala cheiro de poesia
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
04/06/2020, 16’34” – Triângulo Mineiro
Sertão da Farinha Podre
paráfrase César de Oliveira
Violeta
De alma secreta
a violeta:
casta, delicada, serena
tão bela, pequena
e, grande no esplendor
dos amores uma flor
da paixão os afagos
de doces pressagos
beleza e poesia
luzidia magia...
Delicado cristal
Ó formosura universal
que acalma a alma inquieta
és tu... Violeta!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
17’32”, 5 de junho 2020, Araguari
Sertão da Farinha Podre
MANACÁ de cheiro
Para cantar o Manacá numa verdade
Não basta a prosa, tem de ter beleza
No olhar, sensibilidade n’alma acesa
Saber degustar do encanto que brade
Duma flor, duma graça e delicadeza
Do lilás a alva... tão pura na vaidade
Uma quimera envolvente, majestade
O Manacá de cheiro, orna a natureza
Invejo o vento que no seu movimento
Acaricia, beija, e se envolve no cheiro
De essências robustas, doce momento
És formosa que qualquer outra vontade
Pois, abrenha o sentimento por inteiro
Odor que trescala, um cheiro de saudade!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
16 setembro, 2021, 17’20” – Araguari, MG
Ouvir teu cheiro, vi tua voz...falou ao pé do meu ouvido. Me ganhou, me cantou...me levou bem mais além, fomos nós !
Teu cheiro percorre as minhas entranhas e exala por todo o meu corpo como se me pertencesse, como se fosse eu a dona do teu cheiro !
Preciso arrancar de mim esse desejo insano, essa vontade louca de ter, possuir.
Possuir teus olhos, tua boca...ter teu corpo, arrepiar tua pele...não posso fazer de você minha água, comida...tenho que matar minha sede, minha fome...sem ser você minha bebida nem meu prato predileto.
Pensamentos
te colam em mim...
música no ar,
fim de noite.
Vem tua voz
teu cheiro
tua lembrança
perturba,
mexe e remexe
meus poros
minha pele
arrepios...
eu, a procura de tu !