Cerrado
Se és do cerrado
Quanto mais amado
O cerrado é admirado
Se és sem moradia
E vive em romaria
O cerrado é ousadia
E aqui tem poesia!
E desde então, sou cerrado
Desde quanto cá vim
sou árido, ressecado
Por servidão, assim
cá estou, sou, até o fim...
Se buscar bem terás achado
Não os galhos (ressequidos) do cerrado
Não o chão (cascalhado) do cerrado
Mas a diversidade (inexplicável) do cerrado.
(Parodiando Carlos Drummond de Andrade)
O relógio marca
12 horas no cerrado
não sei de qual arca
só sei que estou calado
quantas mais vou precisar
pra esquecer,
e novamente ser amado?
Quem viverá vai ver!
15/05/2016, 12'00"
Cerrado goiano
Que o cerrado
torne na saudade legado
Uma doce lembrança
recordação de vizinhança
Nesta breve despedida
que escreve
mais está etapa vencida
que seja a poesia ao poeta leve
Chão cerrado
Seco ou molhado
Jatobás, Ipês, pequis
Plano ou enrugado
Quaresmeiras, buritis
Chão cascalhado
Mangabas, sucuris
Me vi besuntado...
Multíplice cerrado
Diversidade...
Vida diversa, virilidade
Luciano Spagnol
21/05/2016
Cerrado goiano
Estradeiro
Parido no cerrado mineiro
Levado pra beira mar
Assim fui estradeiro
No Goiás vim parar
Aqui estrangeiro,
incerto lar...
Sou de nenhum lugar.
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
Quando eu for no meu fim
Sentiram saudade de mim:
o cerrado, o Joca, o jardim
Bagatelas
Nem dou trelas
Velarei sem velas
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
Maio, 2016
Epílogo
Eu desperto no cerrado em cada alvorada
Sem acaso no destino, alma esbaforida
A fé de uma confiança vaga, indefinida
O poetar de encontro numa encruzilhada
O tempo se fazendo em horas, estirada!
Dum vulto da estória na história recolhida
Em sobras de ir e vir, querendo despedida
E o fado se deslocando em outra jornada
Não vejo um ideal estampado na vida
Do avanço veloz e distante da passada
O fim do horizonte aumenta a corrida
Neste vazio do hoje, o epílogo é morada
Criando e recriando as perdas já vencidas
Numa entusiasta esperança de virada...
Luciano Spagnol
Maio, 2016
Cerrado goiano
O céu do cerrado é tão estrelado.
Acho que é porque, assim, no breu,
ninguém trupica no chão cascalhado.
Piedade
Ao cerrado minha piedade
Por sua aparência enrugada
Pelas matas secas em queimada
Ao cerrado minha piedade
De tal diversidade rechaçada
De sua sequiosa temporada
Ao cerrado minha piedade
Do verde vertido de cinza
De sua poeirada ranzinza
Ao cerrado minha piedade
Do veloz espetáculo do entardecer
Dos espinhos em ti que faz doer
(nas caminhadas)
Ao cerrado minha piedade
Do teu chão tão cascalhado
Do horizonte pouco orvalhado
Ao cerrado minha piedade
Do esplendor das flores tão logo
De tua melancolia num monólogo
Ao cerrado minha piedade
Por tua piedade por mim, deslocado
Onde terei saudade, de tu cerrado!
Desigual, diferente, onde de ti sou igual
E aqui dos meus já fizeste diverso funeral
Da minha piedade peço a tua piedade...
Por ser este diverso, está deidade.
Luciano Spagnol
23 de maio de 2016
Cerrado goianon