Carne
A dieta exclusivamente de carne e órgãos parece ser a dieta original humana, já que existem intolerâncias e alergias alimentares a todos os outros alimentos.
Meu país é um ensopado, um refogado visguento e malcheiroso que sempre terá o mesmo gosto, com qualquer carne.
SALVADOR
"O sal tempera a carne negra, fosca, a pele crioula exala algum cheiro. Nada se repele no caminhar ligeiro dessa gente provida. Usam dendê e fazem cor e corais para as luzes que flambam os dias em temperaturas tão mais elevadas que, do alto, enxergam as léguas do amor egresso. Nesta cidade, meu bem, em cada rua que entro a sombra do vento é que me guia às pupilas de mães, pais e filhos órfãos - cujos sotaques têm o mesmo timbre das marés altas. Aqui, o farol acende o seu riso, me salvaguardando de toda a dor."
O corpo nu
Ofendem-se com a corporeidade.
A carne, temerária, é algo a ser evitado.
O nu não me reflete o sofrimento humano,
a transparência do meu coração.
O nu, dizem, denota a exacerbação do desejo.
E desejar é perigoso,
faz do corpo ocupações de afeto:
alguém que abraça
e que beija.
A religião se esqueceu do corpo,
preocupada que estava com a saúde d’alma.
Protegida em suas indumentárias.
Olvidam-se que a primeira circunstância para amar
o corpo materializa.
Mas num mundo de corporeidades alienadas
o nu é subversão.
Cubra-te, pois, ó Cristo, a carne crua.
SURRA POÉTICA
Levei uma surra poética
Que me fez menos osso
E menos patética
Que me pôs a chorar em rimas
E soluçar em soluções salinas
Que não me fez nobre
Nem pobre
Apenas apanhei das letras
Lapidei a carne com certezas
Uma surra surreal
Que me fez pingar
Até a vela apagar
E escurecer tudo
Em pleno dia
O pas de deux é química transformada em carne. O coração do balé. A dança é um ritual de sedução, não?
Algumas perdas
revelam uma saudade!
Algumas saudades
revelam uma dor!
Algumas dores
machucam a alma
e parecem cortar a carne!
Aquele que é verdadeiramente espiritualizado não consome carne, não compartilha do derramamento de sangue dos animais em prol da gula. Só vive dos desejos da carne aquele que vive no mundo e despreza que animais assim como os humanos são obras de DEUS.
Sobre o Carnaval ;
"A festa da CARNE está dentro de cada um de NÓS "
E a FANTASIA é o corpo que cada um HABITA.
A poesia até tem asas e voa,
mas o poema, depende das mãos
de carne, ossos e tato,
para chegar à algum lugar!
Vamos olhar com mais empatia para o outro, sem julgamentos,
críticas e invejas. Esses sentimentos e ações são as grandes
causadoras de doenças fatais na carne.
Existe uma distinção teológica entre tentação e provação. Sabemos que ambas as expressões vêm de um único termo grego: /peirasmos/ (πειρασμός).
Contudo, as tentações provêm “do diabo, da carne e do mundo” e as provações vêm “de Deus”!
O arrependimento na nova aliança , só se faz uma vez, quando resolve não se importar com o mundo e clamar pelo Pai, olhando para Cruz de Cristo.
O que vem depois são decisões sua entre espírito e carne!
Porque embora a vida exija o contrário, eu sou feita de carne e osso, sou movida por emoções e não sou obrigada a viver como se não fosse. Permito-me surtar, às vezes, e está tudo bem por isso.
#Dizem #que #burro #velho #prefere #capim #fresco...
Esse é o meu dilema...
Prefiro tudo mais arcaico...
Museu...Teatro...
A coroa do que o cetro...
As rugas com histórias...
O cabelo branco...
Barriguinha é um luxo...
Topete acho feio...
Prefiro aprender...
Não recuso ensinar...
Mas acho muito mais bonito...
Quem tem história para contar...
Um rosto marcado me fascina...
Também tem seu brilho...
Dele não me esquivo...
Lânguido me entrego...
Da carne firme passo batido...
Nela não escorrego...
Acho tão tola essa juventude...
Pouca paciência tenho...
Tudo tão repetitivo...
Enfadonha...
Pode ser que algum dia...
Espero que demore bem...
Deixe de gostar da sombra e da água fresca...
Que só a maturidade tem...
Sandro Paschoal Nogueira
— em Pizzaria Romanella.
Cheguei a pensar que morreria sob o açoite daquele amaldiçoado bruto. Ainda agora minha carne estremece sobre os ossos quando me recordo daquela cena. Eu me sentia inflamar, e meu sofrimento não poderia ser comparado a nada menos do que as abrasadoras agonias do Inferno!
#GERALDO
Era ainda madrugada...
Cobertas frias...
Abandonou o leito...
Contra gosto...
Não tinha jeito...
Era pra ser feito...
Esposa ainda dormia...
Grávida sonhava...
Que em algum dia...
Sua vida melhorava...
Casa pequena...
De dois cômodos apenas...
Dividida por cortinas...
Surradas chitas...
Olhou com ternura ...
Para sua amada...
Com dó no peito...
Para sua mãe idosa acamada...
"Até quando ela sofreria?"
Pensava...com grande pesar...
Resignado...
Ao que nada poderia mudar...
As duas mulheres que mais ele amava...
E por quais era muito amado...
Arrumou sua marmita...
Sem fazer barulho...
Com zeloso cuidado...
Tinha que ir ao trabalho...
Tanto frio...
Blusa esburacada...
Sozinho...
Naquela rua abandonada...
"Vai Geraldo...Vai trabalhar...
Nas sombras das sarjetas...Só os ratos a olhar..."
Vielas tortas, escuras...
Sujas...
Mas sem medo...
Em Deus confiava...
No ponto de ônibus...
Um cigarro ascendeu...
Esquentando a mão...
Afugentando a solidão...
Enquanto o ônibus não vinha...
Na fumaça que subia...
Para Deus orava...
E pedia...
Um término na tristeza de sua vida...
Condução chegou...
Como sempre lotada...
Viajando em pé...
Pernas já ficaram cansadas...
Era apenas uma lotação...
Tinha mais uma pela frente...
Pesaroso sabia...
Que adiante , mais e mais gente...
Enfim...
Chegou ao trabalho...
Pela manhã...
Já estava suado...
Por momentos esteve alegre...
Ouviu vários bom dia...
De seus amigos tantos ou mais como ele...
Desafortunados...
As mãos calejadas...
Fortes e grossas...
Eram leves...
Na pele de sua cabrocha...
Aquele dia...
Seria de grande alegria...
Poderia levar para casa...
Um pouco de carne moída...
Seria sustância para a mãe doente...
Para o filho que viria...
Sua amada saberia ...
Como preparar...
E naquela noite...
Já antevia muito amar...
Refez todo percurso de volta...
Esqueceu de todo cansaço...
Comprou o que desejava...
E ainda sobrou uns trocados...
Já era tarde...
Mas a rua estava cheia...
Fogueteiros de olho...
Comércio cheio...
Não estava a tudo alheio...
Então de repente...
De cores o se se fez...
Tiros...
Correrias...
Confusão...
Algazarra...
Uma bala perdida...
Encontrou alguém...
Que não merecia..
Naquela noite...
Não teve mais alegria...
A cabrocha chorou...
A mãe doente mais ficou...
E para a história terminar...
Só teve uma alegria...
Na sarjeta suja e fria...
A carne moída foi festa...
Para os ratos que ali estavam...
Desconheciam a triste sina...
De Geraldo...
Sandro Paschoal Nogueira