Helena Rodrigues
Cansei dos sentimentos superficiais que não te fazem arriscar. Amar dói, sim. Viver machuca também. Mas o esforço é recompensado. E quando não for devemos juntar os cacos, afinal, é inevitável que alguns corações se despedacem de vez em quando.
Você está certo. Talvez essa mania de tomar decisões com as vísceras seja a única constante no meio dessa bagunça. Mas chega! Eu não quero racionalizar tudo. Não vou criar uma versão equilibrada para as pessoas inexpressivas, essa gente medíocre que sorri sem vontade, chora baixinho e ama aos poucos - isso me dá náuseas!
Sempre há uma escolha, contudo, se você resolver ficar em cima do muro não terá o meu respeito. Porque sinceramente cansei dessa chatice toda! Cansei dos sentimentos superficiais que não te fazem arriscar. Amar dói, sim. Viver machuca também. Mas o esforço é recompensado. E quando não for devemos juntar os cacos, afinal, é inevitável que alguns corações se despedacem de vez em quando.
Então pare de ter medo da vida: investir em algo somente quando se tem a plena certeza do resultado deve ser muito entediante. E olha, eu não procuro nobreza de caráter de alguém invencível e perfeito, mas de carne e osso que demonstre suas fraquezas e más intenções - a parte desagradável porém a mais verdadeira. E apesar de tudo se você conseguir encontrar algum charme nisso fique ao meu lado. Caso contrário, fuja. Eu não vou impedir.
Mal-aventurados aqueles que optam pela estabilidade e pelo conforto e que domesticados, seguem a vida em ritmo previsível. Criaturas em estado irreversível de torpor que com sanidade, atenuam os ávidos sentimentos capazes de estrangular a sua alma.
(Aprecio os desejos urgentes, as paixões desmedidas que nada respeitam.)
Infelizes aqueles que buscam uma estrada segura e asfaltada e que, desorientados, amedrontam-se com os caminhos sinuosos à beira do abismo. Seres moribundos que, incrustados em seus hábitos, evitam os arriscados itinerários por receio das terríveis emboscadas.
(Não há nada tão perturbador quanto a monotonia de determinados trajetos.)
O meu desprezo é direcionado aos covardes de espírito seco e de coração oco que temem a intensidade de existir. Portanto, meu bem, não seja dominado pela apatia: lembre-se de que não há esperança para aqueles que negligenciam as suas próprias emoções.
Apesar de todas as avarias, ainda prefiro a desordem dos sentimentos à simetria das plastificadas emoções.
Atacar o parasita do amor não correspondido é expulsar da alma a súbita doença que nos arrasta aos sonhos impossíveis, à cega esperança que permanece na clandestinidade.
(Somos mariposas atraídas para a luz!)
Sou escrava das lembranças inúteis, refém de um passado moribundo do qual não consigo me desvencilhar.
Apesar da legitimidade do sofrimento, certas escolhas determinam o nosso destino e conviver com a turbulência de emoções é apenas a consequência dos amores mal resolvidos, fantasmas que nos assombram cada vez que olhamos para trás.
Despir as roupas é muito fácil, complicado mesmo é despir as máscaras. Vomitar declarações fajutas próprias de um amor dissimulado é simples, difícil é permanecer voluntariamente apesar de todos os medos, inseguranças e imperfeições. Somente quando a ficção cede lugar à realidade e a rotina não é capaz de massacrar uma relação, a entrega pode ser plena - nunca subestime o poder mágico da sucessão dos dias que fazem as barreiras que criamos ao longo dos anos desmoronarem.
(Acredite: o tempo nem sempre é o vilão do nosso conto de fadas.)
Você pode até censurar as minhas características masoquistas, entretanto, acho que deveria levar a sério quando digo que as dores amenizam e as feridas cicatrizam com o passar do tempo. É preferível dar de ombros diante de um fracasso do que definhar pensando no que poderia acontecer.
(E isso, meu caro, é questão de escolha! )
Não posso negar que em determinado momento eu acreditei. Acreditei que existiria alguém transbordando dentre tantas pessoas rasas. Alguém que não desistiria quando tudo parecesse aterrorizante e impossível. Alguém que realmente se importaria. Mas acabou a espera. Diante de meus inúmeros fracassos percebi que a esperança é um fardo monumental para carregar.
Não estou desistindo. Somente abdico insistentemente de enxergar o que os outros negligenciam – é um trabalho árduo! Cansei de ser vítima da superficialidade. Agora serei apenas uma sobrevivente.
Entenda, meu bem:
Só porque eu nunca dancei conforme a música não quer dizer que ficarei estática na pista.
Eu não temo as pessoas emocionalmente mortas. Perigosas são aquelas que sangram - mas que, apesar de tudo, escolhem sobreviver.
Eu possuo certa dificuldade em absorver as pessoas dolorosamente simples. O ritmo previsível da alma sem conteúdo não passa de uma morte a céu aberto.
Eu sou uma combinação de todos os defeitos do mundo: estou propensa tanto ao ódio corrosivo quanto à paixão avassaladora.
Repelir os covardes é a condição natural de minha existência: sou uma bomba-relógio prestes a explodir.