Luto Morte
Uma das maiores sabedorias da vida é a gratidão no lugar da murmuração.
É mais sábio agradecer pelo que se tem, do que murmurar pelo que não tem.
A gratidão enriquece, enquanto a murmuração empobrece.
A gratidão vivifica, enquanto a murmuração mortifica.
A gratidão reconcilia, enquanto a murmuração causa intriga.
A gratidão é o antídoto contra o veneno da murmuração.
O tempo
O broto puro da terra sai
Enquanto a folha madura
De velha e triste se vai
No louvor de sua altura
O tronco se entrega à escuridão
Deixando felicidade alguma
O lento e súbito clarão
Dos anos que a terra consome
Do belo à sua podridão
A implacável fúria invisível
Ainda viva enquanto dorme
Faz o silêncio audível
O furacão que o céu tocava
Vai do branco ao torto cinza
A uma brisa fria que se acaba
E o destino que se realiza
Ergue a tumba de sua era
Velando a dor que avisa
A doce morte e sua adaga
Ao que um dia do sol vivera
Fadado agora à eterna amargura.
O Anjo Negro
Anjo negro, estrela do crepúsculo
Fala agora onde estás
Tira minha alma desse reduto
Pois somente tu me alegrarás
Estende tua mão agora
Tira de mim esse peso
Não deixa que nasça a aurora
Mata esse medo
Por sobre o chão de pedra negra
Eu logo hei de caminhar
E a luz que passa a fina seda
Com minhas mãos hei de apagar
Me envolve em teu abraço
E me dá com a adaga forte
Faz do meu passo
A casa de tua sorte.
As pessoas querem acumular riquezas
como se fossem viver para sempre
e sempre se chocam quando se deparam
com a única certeza que temos na vida:
O fato da inevitável morte humana.
O homem não é nada programado, somos filhos do acaso e sem função como qualquer pedra, que por evolução acabamos possuindo um emissor de energia que ainda não sabemos controlar e que poderá nos conduzir para a vida fora da massa vulnerável do corpo ou transformá-lo por expansão das partículas em um veículo mais apropriado e eficaz. Podemos ser Deus também...
Infinitos são os deuses, imperfeitos os seres etéreos, mas sem necessidade prática de interferir de forma física nos habitantes desta partícula bruta chamada Terra, extremamente inferiores que se digladiam perdidos em suas incompatíveis engrenagens, em busca de compreender sua hipotética função.
O homem caminha para a extinção física, acelerado pelo aprimoramento da medicina, que vai contra a seleção natural que permitia que só os mais fortes sobrevivessem e o resultado é a crescente debilidade dos novos habitantes da Terra.
Você pode ser o único indivíduo do Universo, um Deus louco dominado pelos seus pensamentos desordenados... Tudo que o cerca pode ser produto de seu cérebro borbulhante.
Você pode existir mas é indiferente existir ou não, sua presença torna-se irreal porque só por si percebida; auto devorando-se nada sobrará para perceber sua ausência, comprovando-se sua anterior inexistência...
Sentimento de loucura? Meros conceitos, se não há parâmetros, um ser único não pode ser louco ou normal, seria o normal ser louco.
Toda existência, trabalho, prazer, são inúteis porque são imediatamente engolfados pelo tempo que acompanha qualquer presença.
Existindo ou não, fugazes ou imortais, humanos ou deuses, diamante ou carvão, nada pode ser superior ao Nada, que não requer esforço, premente utilidade ou valor, busca, conhecimento, espaço, manutenção... O Nada é a perfeição, limpo, sem defeitos, estático, sem tempo. Até mesmo Deus, invenção humana que pretendia ser o modelo da perfeição, caso existisse, teria que ser, estar, de um modo ou de outro e portanto inferior ao Nada que simplesmente não é, não precisa ser, não precisa estar.
Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar.
Quem condena o suicídio? A Igreja? Mas a Igreja pode lá condenar alguém? A vida é uma infâmia. Para que viver? E esta pergunta, cem vezes repetida, nunca encontrou resposta. Que somos nós? Lama nascida da lama e que em lama se tornará. Nada sabemos e nada podemos. Todo o esforço é inútil, toda a dedicação perdida.
A massa gordurosa que agora se dissolve na terra sob o ataúde é superior ao conjunto químico pensante que ali foi colocado após a transformação chamada morte, tal qual a areia está um passo à frente do bloco de quartzo, rumo ao quase Nada.